quarta-feira, 20 de maio de 2026

É tudo sobre dinheiro?

Eu fui no BBB Experience mês passado. Foi a melhor, e mais divertida, experiência antropológica da vida. Tinha gente de tudo que é lugar do Brasil. E uma fila enorme para pessoas se inscreverem no programa.

E isso me gerou alguns questionamentos.

Pq essas pessoas querem ser vigiadas 24h por dia? Automaticamente eu respondi, dinheiro.

E acho dinheiro uma resposta válida. Porque é exatamente essa a minha resposta. É lícito? Topo.

Mas aí me senti desafiada, e na própria fila comecei a perguntar. No mesmo dia que te chamaram para o BBB, você descobriu que ganhou na mega sena, mesmo assim (pausa dramática) você iria?

100% das pessoas que perguntei, disseram que sim. Então chego a conclusão que o negócio não tem a ver com dinheiro (sobe os créditos). Não, mas quero ir além. 

Eu fiquei indignada. "É mesmo? Pois eu desistiria. Imagina ganhar milhões, e não ter que ir para um programa de TV? Um sonho!".

Não, não era um sonho para as centenas de pessoas que estavam na fila. 

É sobre ser amado, validado e principalmente -  famoso. O dinheiro não está em primeiro lugar. De que adianta ser milionário sem visibilidade e aprovação do Brasil? 

O que seria meu sonho, não é o sonho de todos. 
Inclusive, Deus me defenda da fama. Eu quero que no instante seguinte ninguém lembre de mim. 

Eu não saberia sequer participar deste tipo de conversa:

 - Você é famosa por quê mesmo? 
 - Por ter estado durante 100 dias vivendo a minha vida.

Nesse ponto eu já teria desmaiado de vergonha. A pessoa tem que ter uma autoestima de milhões mesmo para se achar tão importante assim, eu não tenho.

Eu acho que me dá uma certa vergonha não ter feito nada de importante, e ter tanta gente seguindo. 

Eu não mereço ser famosa. Não quero ser famosa. Mas gosto muito de dinheiro, isso é um fato.

Estarei eu disposta a abrir mão da minha privacidade por dinheiro? Sim! Claro que sim. Mas com o coração quentinho de saber que a fama é efêmera, e que em pouco tempo absolutamente ninguém vai lembrar que eu gosto de comer tapioca de manhã.

Quem ganhou o BBB9?


quarta-feira, 6 de agosto de 2025

O que tem pra hoje?

 Tem uns dias que eu tenho vontade de me encontrar. Aí eu venho aqui, olho as postagens, tiro a poeira.
Teve uma época em que eu acreditava que um dia alguém viria aqui, leria esse monte de baboseiras, acharia genial, e eu ganharia dinheiro com isso. Nunca aconteceu. Nem vai, seja honesta com você, Viviane. 

E eu sigo escrevendo, mesmo que uma vez por ano. Mesmo que muito esporadicamente. E sigo porque eu gosto muito de ver o quanto eu sou confusa. E volto aqui sempre que estou confusa. Aí descubro que eu já fui muito mais. E então eu percebo a função desse blog. Um emaranhado de confusão. 

Se todo confuso escrevesse um texto, desse uma chorada e seguisse em frente, o mundo seria mais honesto. Ninugém encheria o saco de ninguém. Mas aí ele também seria mais chato. Porque a beleza de um problema, de uma sarna pra se coçar, de um mal entendido, é o que dá o brilho à vida.

Andava tão pacata que a biografia não estava valendo a pena. O personagem precisa se movimentar para que tenha história. E eu estava com tanta preguiça da vida, que não estava me movendo pra lugar algum. Evitando a fadiga. Evitando a vida. 

Esses dias fiz um mergulho nos quereres, e tem quereres que eu coloquei tão em segundo plano, que cheguei até a esquecer deles. Ficaram no depósito, como se fosse um museu de utopias. Tem desejos que eu não ouso nem falar em voz alta. Vai que eu acredito?

E a vida não é um acreditar? 

Alguém me disse que eu sou capaz de falar 2h sem falar nada. Se soubesse o barulho, o fuê, o caos que é a minha cabeça, saberiam que sou capaz de falar 24h e não dizer nada.

Acho que estou precisando de uma boa sarna para me coçar. Meu auge é quando eu estou apaixonada. E faz tantos séculos que não me apaixono que eu até ando inventando paixões.
Como diria Cazuza "O nosso amor a gente inventa para se distrair".

Volto distraida, e com invenções, mas volto.


segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Quando crescer

 Eu nunca fui a criança que alguém perguntasse sobre o que eu seria quando crescesse.
A única coisa que valia na minha família era se iríamos sobreviver. Pagar o aluguel, vestir e comer. 

Comprar roupa somente na troca de estação. E não era simples. Era comprar roupa de frio no verão, e de verão no inverno. Então, nunca fui a criança que esteve na moda.

Eu fui ao Mc Donald´s depois de grande, quando eu pude pagar meu próprio lanche. Talvez por isso hoje eu seja a adulta que não está nem aí para a rede de fast food. 

Essas coisas materiais, honestamente, não me fazem a menor falta. Mas eu notei, depois de adulta, que eu não tive pais presentes. Minha mãe nunca falou sobre sexo comigo. Tudo que eu aprendi foi na rua, ou lendo. Eu era uma baita de uma leitora. Vivia pegando coisas na biblioteca.

E, além de não ter sido educada/instruída,  o que me pega mais é a famosa pergunta "O que você vai ser quando crescer?".  Na minha infância minha mãe estava tão preocupada com ela, com terminar os estudos dela, pensar na carreira e etc, que nunca pensou sobre a minha vida.

Eu lembro que um dia, quando eu já estava prestes a terminar o Ensino Médio, ela me disse "Você vai fazer Direito". Eu não tinha vocação alguma pra isso. Mas na cabeça dela era o que dava dinheiro.

Óbvio que eu nunca passei em um vestibular para Direito. Eu mal estudei! Nunca coloquei os pés em um cursinho. Eu não sei de onde ela tirava a ideia que eu, sem estudo algum, vinda de uma escola pública, iria passar num vestibular. 

Quando ela notou que tinha fracassado neste sonho da advocacia, me disse "Já que você não passa na faculdade, precisa trabalhar". E, como não tem profissão, vai fazer magistério". Ou seja, eu terminei o Ensino Médio, e voltei a fazer o Ensino Médio. Enquanto os pais dos meus colegas pagavam cursinho, faculdade, eu estava voltando para o Ensino Médio.

Foi horrível! Eu me sentia péssima. Inútil, era isso. 

Bem, depois que terminei o Magistério eu comecei a trabalhar para pagar a faculdade privada. Fiz Rádio e Televisão. Isso diz muita coisa.

Eu demorei anos e anos para perceber que o que me faz feliz é arte. Deveria ter feito artes cênicas e foda-se, sabe? Mas não tive coragem porque eu precisava trabalhar para me sustentar. E artes cênicas? Anos 2000, minha gente. Eu não era padrão, e não era filha de ninguém. Quais as chances?  

Esse textão é só pra dizer. Incentivem seus filhos. Perguntem sobre o que eles gostam. Se interessem por eles. Isso tem muito mais valia do que qualquer brinquedo, qualquer curso, qualquer coisa.
O interesse genuíno não tem preço. Isso fará essa criança se sentir segura, acolhida, e com certeza terá mais ferramentas para enfrentar a vida.

Por outro lado, tem uma coisa que essa infância/adolescência desacompanhada me trouxe.

Sou uma adulta que não está nem aí pra validação, nunca tive mesmo. Então se as pessoas gostam, não gostam, querem ver, não querem, eu não estou nem aí. 
E, isso também reflete nas relações. Eu sempre acho que não preciso me relacionar com ninguém. Na verdade eu nem sei me relacionar. 

Sabe o que foi isso tudo? Uma boa sessão de terapia...


segunda-feira, 15 de abril de 2024

Menos Pausa

Eu escrevo em blog desde que o mundo da internet existe. Sou blogueira desde quando blogueiras faziam blogs. 

Agora estou no climatério. Sim, aconteceu. Quer dizer, eu tirei essa informação da minha mente. Ainda não fui ao médico. Mas tenho dito isso aos quatro ventos como se eu tivesse sido sentenciada. Cheguei naquele momento da vida que a gente diz "na minha idade (...)", mas tendo a oportunidade de me ler desde os 25 anos, eu sempre fui assim. Sempre cheguei antes nos problemas das idades. É um preview. Vanguarda, alguns diriam.
Mas que tipo de gente quer chegar na menopausa antes de chegar?

Sempre tive amigas mais velhas que eu. Aí na virada dos 35, eu me juntei com jovens. Eu que era a antítese do Peter Pan, quis tardiamente entrar na terra do nunca. Fui fazer um intercâmbio com jovens, e tive a oportunidade de me sentir velha de verdade. Quem é velho aos 35 anos, meu Deus? Eu não sou velha nem agora aos 42. Me espanta quando alguém me chama de senhora. E que doideira é essa de jovem pra ser velha, e velha pra ser jovem, Sandy?

Bem, agora eu entrei nesse combo do climatério. Toda vez que alguém me conta uma história de menopausa, eu compadeço como se eu vivesse de menopausa desde criancinha. Aqui é menopauser, team menopausa! Bora, idosas, mulheres.

Eu sinto calor. Mas de fato está calor, o nome disso é aquecimento global, não menopausa.
Eu sinto cansaço. Mas quem não sente? A gente trabalha muito mais que antigamente, ganha-se muito menos, e vive-se muito mal.  

Ando sem paciência. Mas isso eu nunca tive mesmo. Nunca foi um dom. Confesso que é até minha marca registrada. 

Eu nunca precisei da idade para falarem "deixa ela, tá louca!", porque sempre fui estranha. 
Então não é a menopausa, sou só eu mesmo.

Mas dizem que a gente fica confusa e sem memória na menopausa. 
Eu acho que foi a maconha que fumei na juventude. 

Uma amiga que está no climatério está fumando maconha. Disse que ajuda a acalmar, e não perder o réu primário. Se é fato, eu quero maconha no SUS. Vamos acalmar essa população de mulheres à beira de um ataque de nervos, incluindo eu, claro.

Acho que vou fazer um livro sobre menopausa. A menopausa me deixou cansada para fazer um livro sobre menopausa. Vou mandar uma mensagem para Ingrid Guimarães, ela está nesse tema. Assim, ela que está mais por dentro, pode fazer uma série pra gente. Pensei na Ingrid porque eu não quero a decadência. Eu quero pelo menos rir disso.

Ingrid, vou até voltar a fumar maconha, e colocar na conta do climatério. E vou fumar maconha vendo a série que você vai escrever. 

Tá vendo como esse negócio de climatério é confuso?
Eu esqueci sobre o que era esse texto.

 

sábado, 15 de julho de 2023

Uma palavra

Tem um exercício que você pede para alguém muito próximo te definir em uma palavra. É interessante, façam. 

Pedi para minha mãe me definir em uma palavra. 

Eu: Mãe, me define em uma palavra?

Mãe: Como assim? Eu preciso te explicar em uma palavra?

Eu: Não precisa explicar. Quando você pensa em mim, o que me define pra você.

Mãe: Responsável.

Eu: Mãe...

Mãe: Você é. Quer dizer, eu acho às vezes. Pôxa, difícil definir assim. Precisa ser elogio?

Eu: Quer dizer que você estava procurando uma característica legal pra me elogiar, mas não é o que você realmente pensa?

Mãe: Tá, então não precisa ser elogio, né?

Eu: Mãe, definição!

Mãe: Vivi, você não é focada. Qual o nome para uma pessoa que não é determinada? Você desiste fácil. Se o negócio é complexo, você abandona. E não que você não tenha capacidade intelectual. Você só não faz. Não quer fazer, não faz. 

Eu: Me dá um exemplo pra eu te ajudar com a palavra.

Mãe: No trabalho. Você presta um processo já não se esforçando pra passar. Você não é ambiciosa. Não tem um caminho, uma trilha, sabe? Mas quando a coisa te interessa....Tipo viajar, você decide de forma rápida, organiza, e vai. Hiper focada.

Eu: Então não é que eu não seja determinada. Eu escolho bem minhas batalhas.E aqui a gente tem um erro de perspectivas. Esse foco é o que você gostaria que eu tivesse. É a sua projeção de filho. A entrega que você gostaria que eu fizesse.

Mãe: Tá, então eu vou mudar de palavra. Você é inconstante. 

Eu: Aí eu vou concordar. Mudo de opinião com muita facilidade. E isso chama-se evolução, aprendizado, escuta ativa, abertura para entender o outro, agir de acordo com os meus sentimentos. Se a inconstância é o caminho para o aprendizado e autoconhecimento, eu aceito a palavra.

Mãe: Eu quero mudar a palavra. Você é inteligente...e persuasiva. 

Rimos. 


Rita, Zé, muitos, IA´s e a cultura.

No dia 07/05 chegou em minha casa o livro "Uma autobiografia - Da Rita Lee". 

Comprei porque tinha assistido uma entrevista da Manu Gavassi falando das homenagens que fez à Rita. Sabia que ela estava doente e que de certa forma estavam todos a homenageando em vida para que ela pudesse entender o tamanho de sua influência no rock nacional. 

Dia 22/05 estava agendado o lançamento do "Outra Autobiografia", dia de Santa Rita de Cássia. Queria reler a primeira. A cabeça é aquela coisa, não guarda tudo. Aliás, eu nem sei o que a minha têm escolhido guardar. Isso é outra história, tá vendo como a cabeça engana a gente?

08/05 a Rita faleceu. Eu tinha apenas começado a ler a primeira autobiografia.

Eu ainda acho interessante esses fatos de datas. Semana passada morreu Zé Celso 06/07. Ele havia casado no dia 06/06- Exatamente um mês antes da sua morte.

Nestes dias de falecimentos de pessoas que movimentaram a cultura deixando sua linguagem marcada no tempo, todos que não os conheciam, passam a conhecer - e eu acho ÓTIMO! Vende-se um monte de camiseta, livros, discos, surgem fãs, críticos, videntes que já previam tudo isso, especiais nos programas, ET´s descem à Terra pra ver o que está acontecendo com esses humanos, enfim, é um movimento. 

E da mesma forma que ovacionamos, meses depois, estão no "ostracismo". Dizem que o legado será levado adiante, que lembraremos com respeito e admiração, dizem. Em tempos de Tik Tok, a gente não guarda nem o que almoçou no mesmo dia. Nosso cérebro está virando mingau. 

Lembro de estar em Londres quando a Amy morreu. Camden Town e adjacências estava um inferno (no bom sentido). Todos cantavam, bebiam, falavam, choravam Amy Winehouse. Admito que eu também. Era 2011 e eu era jovem. Me sentia fazendo parte de um momento histórico, de fato estava. Tanto que apesar da minha pouca memória, esse dia ficou cravado nela. Sai dali querendo conhecer mais e mais sobre ela. Não seus vícios, nem seus memes, eu queria saber da artista foda que Amy é. E digo no presente porque a obra está aí. 

Hoje a camiseta da Rita estava em promoção. 

O Teatro Oficina anda cheio, os que não conheciam, querem conhecer o trabalho do Zé (iupi, que bom!)

Amy Winehouse? O que virou o legado dessa artista? Usaram o corpo dela ao último, usaram a memória dela ao último, fizeram documentários dos problemas com as drogas, bebidas, falaram da família, e sugaram de todas as formas possíveis, jogaram o bagaço fora. Em setembro Amy faria 40 anos. Com certeza farão muitas especulações, alguma IA vai fazer o "Como Amy estaria hoje", e vão ressuscitar a Amy de alguma forma. Não pelo seu conteúdo artístico, mas pelo potencial financeiro que essas coisas têm.

E a arte? E a composição? E o real legado?

O que essas pessoas deixam, é uma mudança de pensamento, um tijolo para construção de uma sociedade diferente, um modo de pensar, um modo de ver o mundo sob a lente da arte. É muito mais que uma camiseta com uma frase.

Esses dias a IA da Elis Regina estava dirigindo uma kombi e cantando "Como nossos pais" em um comercial. Elis, já morta, foi comercializada pelos filhos para vender uma kombi. Alguns dizem que foi lindo, foi uma homenagem, os filhos deixaram, e blá blá blá. E eu realmente não tenho nada a ver com isso, mas me dou ao direito de ter minha opinião. Ainda podemos ter uma, certo?

Levando em consideração tudo que a Elis falou, fez, construiu, mudou, revolucionou...Será mesmo que ela venderia uma kombi?

A camiseta da Rita estava em promoção. Na semana que ela morreu estava caríssima, assim como seus livros. Os artistas morrem, o capitalismo lucra.

Amanhã Zé Celso será uma camiseta quando na verdade ele queria ser nome de parque. Parque este que Silvio Santos, que logo mais será nome de Rua, Teatro, Cinema, etc, etc, etc por sua popularidade, não o permitiu construir. Talvez o Silvio IA dirigindo uma kombi faça mais sentido pra mim.


segunda-feira, 26 de junho de 2023

A viagem do eu

Tem um milhão e meio de postagens contando sobre chá de ayahuasca. Provavelmente você vai chegar no vídeo do Caetano, passando pela Maitê Proença e Rian Brito. Talvez o algorítimo te traga até aqui.Talvez!

E, antes de qualquer coisa, eu não sou médica, médium, nutricionista, muito menos especialista sobre o tema. Ou seja, essa é a minha experiência. E ela pode ser muito diferente para cada ser humaninho. Somos biologicamente, socialmente, psicologicamente, fisicamente,  complexos e diferentes. Somos únicos na nossas combinações, então não existe uma regra.

Eu tinha pensado sobre o chá da ayahuasca algumas vezes. Sempre por curiosidade. Fazia uma piada que chá revelação real oficial, é o da ayahuasca, mas sem refletir muito sobre o tema. Era algo que eu sabia da existência, achava interessante, e entendi que o dia que fosse para eu tomar, tomaria. Mas realmente nunca fui atrás. Uma vez, no Peru, me convidaram para um ritual do chá. Não tive coragem. Primeiro porque estava viajando sozinha, segundo que eu estava vindo de um cenário bem ruim de síndrome do pânico, e eu já estava com medos reais demais para entrar no meu subconsciente. E isso é um lance importante. Se conheça, entenda suas limitações. Não tem problema algum você não se sentir pronto. Ninguém te conhece melhor que você. E eu sou bem grata por não ter tomado naquele momento. 

Foi no sábado - 24/06. Eu fiz aniversário dia 16/06. E eu sempre faço um texto de aniversário para me lembrar de como eu penso, e etc. Normalmente publico aqui neste blog que virou mais um diário do que um blog em si. 
Uma amiga me disse que estava indo para um ritual de ayahuasca num sítio no interior de São Paulo. E em tom de brincadeira eu disse "E por quê eu não fui convidada?" - ela me disse que se eu quisesse ela poderia ver se eu poderia entrar no grupo, 20 minutos depois eu estava no grupo. era por volta das 13h e o ritual seria a noite. Tem gente que passa dias se preparando, dias refletindo sobre o tema, alguns passam anos até tomar a decisão. E lá estava eu, em menos de 7h para o ritual, refletindo se era isso mesmo que eu queria fazer.

Bem, eu pesquisei. E aí está o erro, acreditar em tudo que está na internet. Então leia sobre o assunto, mas saiba que assim como você, a internet é um oceano de coisas. Coisas boas, coisas ruins, mentiras, e etc. A peneira de conteúdo é complexa. Aí bateu a insegurança.
E se eu enlouquecer? E se eu for nessa viagem e não voltar nunca mais? O medo da insanidade é real, né? Como se o que a gente vivesse fosse normal. É só olhar pela janela da internet e perceber  que a normalidade foi convencionada, e ela nunca existiu de fato. Mas enfim, isso aqui não é uma ode à sanidade ou insanidade mental. 

Estou em processo terapêutico faz anos. Eu faço teatro por autoconhecimento, faço análise, leio, me escuto, converso comigo e com os outros. Tenho uma escuta ativa e interessada pelo mundo. Será que eu não posso confiar em mim? E, se tudo que eu acho que eu já caminhei e aprendi sobre mim não for suficiente para dar esse passo? Me dei esse voto de confiança. Decidi que a experiência seria minha, e não poderia me influenciar pela história dos outros.

22h em ponto, eu, minha mantinha, meu lencinho de pescoço pro frio, meu japamala (que fazia séculos que não era usado) estávamos lá na tenda sentindo o calor de uma fogueira em roda com mais 12 pessoas que iriam fazer a consagração e três guardiões.

Os três guardiões sentaram conosco na roda, e explicaram como seria o ritual. A duração é de 4h40 e seria servido 3 doses do chá. E que cada um saberia seu momento, e entenderia a dose necessária. Explicaram que cada um tem um processo diferente, e que seria revelado aquilo que nossos corações estivessem prontos para receber. 

Tomei o chá, e esperei o processo. Começou em cerca de 20 minutos. Sabe quando você pega um trem muito rápido, e a paisagem vai passando e você não consegue muito bem entender as imagens? Pra mim foi assim o começo. Era tanta informação, que fiquei até zonza. Acho que é por isso que algumas pessoas vomitam. É uma expansão gigantesca do nosso subconsciente. E lá tem bastante coisa, posso garantir.
O começo é bem difícil, pareceu que eu estava atravessando o umbral. Demorou um tempo para eu conseguir chegar no estado de paz e gratidão. Mas quando eu cheguei, eu não queria sair de lá por nada nesse mundo. Foi a melhor experiência que já tive na vida. A força interna, o agradecimento pela jornada, o entendimento do que sou, e a gratidão por toda a minha história. Eu nunca tinha sido tão grata. 
Não vou entrar em detalhes da experiência em si porque não tem receita. Não tem o melhor jeito de viajar, não é um guia "Conheça a Itália". O terreno é fértil e diferente. E realmente cada um terá sua experiência. 
Mas se eu puder dar só uma dica a dica é AUTOCONHECIMENTO. Saiba seus limites, saiba quem você é - seu lado luz, e seu lado sombra. Agradeça o processo. Se você chegou até ali, é porque estava pronto para aquilo. Nosso cérebro é incrível, e ele essa viagem é interessantíssima. Pode ser que não seja agradável, mas você não sairá sem nada dela. 

sexta-feira, 5 de maio de 2023

Quando uma mulher se liberta

Quando uma mulher se liberta, ao seu redor, outras também se libertarão. E, se não se libertarem, pelo menos em algum momento se questionarão o caminho que estão trilhando.

Diariamente somos bombardeadas por corpos, dietas, abdomens, milagres estéticos como harmonizações, cabelos, roupas que não nos cabem, e julgamentos sobre nossos corpos, modo de pensar, agir ou falar. 

Uma mulher deveria ser mais delicada, mais "bonita", menos falante, menos decidida, menos e mais alguma coisa.  No dia das mulheres vocês vão ganhar um batom. E ainda terão uma quota nos partidos políticos. Se te entendem como quota, significa que em algum momento você foi preterida. Já pensou sobre isso? Vamos dar esse espacinho para elas falarem. Vai lá, moça, fale. 
Você não faz parte das discussões. Você tem um lugar para falar na condição de mulher. Vamos ouvir o ponto de vista da mulher, vai. Vamos fazer este favor.

Enquanto isso os julgamentos são diários desde o nosso nascimento. E vem de onde deveríamos ter o nosso alento, nossas mães. "Você está gordinha, heim?" "Se não emagrecer, nenhum homem vai te querer" "Senta direito, feche as perninhas" "Meninas não falam assim".

Não casou, não teve filhos, não tem o padrão estético. Tadinha, acho que deu errado.

Às vezes a gente esquece que elas também são mulheres, e elas também sofreram pressões. E a forma de amar, é tentar te colocar neste espaço em que a sociedade te aceite. Afinal, ninguém quer uma filha preterida. Ela deu errado. Falhou como mulher. E fica o questionamento sobre o que seria o tal falhar como mulher.

Talvez, só talvez, ela tenha dado certo pra cacete. Não está preocupada mais com o que os homens irão pensar, e em momento algum se diminui - no sentido físico, emocional, ou de opinião, para caber nos lugares. E com isso é vista como alguém que tem ódio - a  mal amada.

Será que podemos ser bem amadas por nós mesmas? Será que podemos parar de dizer que é falta de pica? Falta de um bom homem?

Aos homens é ensinado a amar muitas coisas. Às mulheres é ensinado a amar os homens - disse Valeska Zanello em um estudo maravilhoso sobre masculinidade. 

Diariamente ouvimos mulheres insatisfeitas. Anote em um folha de papel quantas vezes ao longo do dia você vai ouvir uma mulher insatisfeita, principalmente com seu próprio corpo, isso vai encher uma página.

Quando eu estiver mais magra, quando eu fizer meu botox, quando eu fizer minha lipo, quando eu fizer minha harmonização facial, quando eu...

Saibam, irmãs, esse "quando eu" nunca vai cessar. Sempre haverá um outro patamar não atingível, e você vai passar a vida tentando atender as expectativas de uma sociedade patriarcal. 

O "quando" pode ser agora. Agora você pode decidir ser feliz na pele que habita. Agora você pode ser feliz com a sua construção emocional, sem a validação de ninguém. No dia que nós resolvermos nos amar de verdade a gente vai fazer uma revolução.


quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Aftersun

Parece mesmo que a memória vai apagando. E se você fechar bem os olhos, vai ver lá no fundo algo que pode ser real, ou que pode estar totalmente misturado com as suas emoções. Tem sensações que estão tão presentes, que você sente o cheiro, o gosto, como se fosse o dia de ontem. E esse emaranhado de memórias formam a gente.

Quando eu era criança eu jamais imaginaria que meu pai pudesse morrer. Isso não passa pela cabeça de uma criança. Das minhas irmãs, eu sou a que mais conviveu com ele. Do tempo que meu pai era jovem e tentava ser pai, sem ao menos saber o que isso poderia ser. E quando minhas irmãs me perguntam sobre ele, eu digo que ele era um cara divertidíssimo e a minha criança era muito apaixonada por ele. 

Lembro de ir para escola de cavalinho, com as pernas cumpridas batendo em seu peito enquanto andávamos dois quarteirões até a escola. A gente conversava, ria, ele me dava um beijo e eu entrava para escola. 

Ele brincou comigo de pega-pega, me levou ao circo, aos shows infantis, me deu uma perna de pau, brincou muitas vezes comigo de castelinho e tubarão na praia, ele arrumava o cabelo pra cima e dizia que viraria um grande tubarão e que iria me pegar. Me ensinou a andar de bicicleta, adotou um gato preto, mesmo minha mãe não gostando de gatos, adotou um pastor alemão para cuidar da casa, e no final a gente que cuidava dele o tempo inteiro. Meu pai penteou meu cabelo, trocou meu uniforme de escola muitas vezes, fez meu almoço favorito, me deixava escolher um docinho na padaria aos domingos, e assistia os Trapalhões comigo, tomava chá das minhas bonecas, e estava sempre disposto a entrar no meu faz de conta. 

Eu tenho um medo danado de perder esse cara legal que habitou minha infância. Ele foi embora na minha adolescência. Meus pais se separaram, e eu nunca mais consegui vê-lo com aquele olhar infantil mágico. Mas vira e mexe eu gosto de colocar uma música, ver as fotos, e pensar que foi muito bom ter registrado tudo isso na minha câmera mental.

Então, se eu fechar os olhos agora, eu consigo sentir tudo isso como se fosse ontem. 

E vou refazer esse caminho algumas vezes porque quero manter todos esses fragmentos o máximo que eu puder. Fazia tempo que não visitava. 

Obrigada, Aftersun por isso.

domingo, 15 de janeiro de 2023

Comprando flores pra mim

Eu assisti com um risinho de canto de lábio o clipe da Miley Cyrus -  Flowers. 

Pare de ler esse texto é vá ver. Vamos dar mais streaming para gata.

Esqueceram que além de cantora, Miley é atriz. E entregou tudo no clipe. Sim, dá para se divertir sozinha. Dá pra dar a volta por cima e rir disso, e no caso dela, ganhar dinheiro porque risadinha não paga boleto. 

Shakira, Miley, Amy, Marília Mendonça, Adele, meninas, eu entendo vocês. Depois de ser muito trouxa na vida, uma hora você dá uma cansada mesmo. Minha única chateação é não ter o talento de diva pop para dançar, e cantar monetizando o chifre e a humilhação.

Bem, eu não ganhei dinheiro. Ganhei experiência. E eu não faço papel de trouxa faz uns 10 anos. Parabéns pra mim. Cantaria e dançaria pela rua para comemorar esta marca histórica.

Não fiz um clipe, mas comemorei isso em terapia. Durante a sessão eu finalmente consegui fazer um lindo compilado sobre todas as vezes que fui trouxa. E mais que isso, saber que nessa cilada eu não caio mais. O golpe precisará ser atualizado. O "eu te amo mas não largo minha família + eu te amo mas meu relacionamento é antigo + eu te amo mas ela vai se matar se terminarmos + eu te amo mas não podemos ficar juntos porque vc é SO CRAZY (aham) + eu te amo mas você não é pra namorar + eu te amo mas não quero me relacionar agora", não cola nem fodeeeeeeeeeeeeendo!

Certa feita (sempre quis usar isso), um grupo de mulheres se virou contra uma amigo. Dizendo que ele era tóxico. O linchamento do cara foi em toda a internet de meu Deus. Na ocasião eu fiquei do lado do cara. Honestamente? Fiz merda. Era coisa de umas 5 mulheres que se juntaram para dar o cacete na internet. Eu fiquei do lado do cara. Errado! Já faz uns bons anos, e eu não tenho como resolver isso. Mas serviu de lição. Seja lá qual for a treta, eu vou ficar do lado das minhas. Não venham com  blá blá blá  "Ah, ela se expôs" "Ah, não precisa disso" "Que baixaria!" "Mulher se preserve", porque foi isso que nos ensinaram a vida toda. Quantas e quantas mulheres foram traídas, humilhadas, e sofreram em silêncio para preservar filhos, casamento e etc?

Chimamanda Ngozi Adichie no podcats How to Fail with Elizabeth Day.

"Como mulheres, nosso potencial de ser amada é equivalente à nossa capacidade de se sacrificar e de se colocar em segundo plano. Em quase todas as culturas as mulheres são valorizadas pelo seu nível de entrega, de se colocar em segundo plano: 'Nossa, ela sacrificou tudo pelos filhos e pelo marido, é uma excelente mãe e esposa'. Na Nigéria, as pessoas dizem que, quando você se casa, significa que você tem outro filho, porque seu marido é, na realidade, seu filho".

Eu detesto mulher boazinha, na moral. Até porque eu já fui MUITO BOAZINHA. BOAZINHA PARA UM CARAJO. E ninguém foi bonzinho comigo, não. 

Então eu entendo a Miley lançar o Flowers, dançar, cantar, e entender que ninguém é mais importante que ela. Habla y Habla, Miley!

Quantas histórias de homens preservando alguma coisa você já ouviu?

Então, é isso. Chega de ser boazinha, manas. Arregacem. Sou a favor do arregaço geral. E, saibam que estarei com meu pano limpo e preparado para passar para todas. Porque tem muito feministO por aí, mas ninguém passará um belo pano por você como uma mulher.


quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

Os finais

Gosto do final de ano. Acho que já disse isso um milhão de vezes. Vou continuar dizendo. Como de costume, vai aqui minha ode ao final do ano.

Final de ano é a procrastinação legalizada. É o "Ano que vem eu vejo isso" com a esperança infantil de que de fato veremos. 

O ano novo faz pelo adulto o mesmo serviço que o natal faz pela criança. Aquela sensação de presente,  caderno com cheirinho de novo no primeiro dia de aula. É quando você capricha na letra, promete que vai fazer daquele caderno um caderno bem especial. Ano novo pra mim é isso, repensar, refletir, organizar, recarregar a bateria com promessas e vontades.

Nada cai do céu, correto? Então bora para sessão de post it pela casa, tabelas no excel, a lista ficando grande, só assumindo compromissos para eu me cobrar o ano inteiro.
A casa nova, a viagem, o autocuidado, autoconhecimento, a promoção no trabalho, o teatro, me enfiar em alguma confusão e zaz, zaz, zaz (como diria Chaves do oito, esse ícone do idoso millennials). 

Eu sei que muitos planos eu vou descobrir no caminho que eu nem queria tanto assim. No meio do caminho vão surgir outras coisas que talvez eu nem tenha colocado na lista, e já diria Dummond - uma pedra no meio do caminho, mas aí que mora a diversão. Drummond não diz muito sobre diversão do caminho, só falou da pedra mesmo, como se o caminho não pudesse ser mudado. Sei-lá, a pedra era colorida, divertida, eu conversei com a pedra como no filme Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo, e ela me mostrou outro caminho. Tropecei na pedra, e por quebrar o dedão aprendi a andar melhor. Sei-lá, Drummond! Poderia ter dado os seus pulos, mas ficou ali, só reclamando da pedra. às vezes a gente só reclama da pedra, respira profundamente, não faz nada, e volta a reclamar da pedra.


Aliás, poesia sobre diversão - pesquisar no Google. Farei isso ano que vem.  


Sonhar não custa nada, é o que dizem. E se está de graça, vamos colocar a imaginação para funcionar que é disse que um bom ano é feito.


E, como sempre, fica a promessa do escrever aqui. Gosto de prometer e não cumprir. Aí eu volto aqui depois de séculos, e rio de mim mesma dizendo: "Ah, danada! Mais um ano que você prometeu tudo, e não entregou nada!". Pelo menos já me garanto essa risada no futuro. Eu tenho um estoque de risadas para o futuro. Já prometo algo que sei que não vou fazer, só para praticar o autobullying.

Tenho um estoque de risadas do futuro, uma vontade de todo dia fazer diferente, um respeito gigantesco pelos que cruzam meu caminho, uma família querida e amigos sensacionais. Acho que já é uma boa capa de caderno tilibra. Agora é só escrever nele.

sexta-feira, 21 de outubro de 2022

Ao esmo, amor.

 Terminei ontem o livro da Ana Suy - A gente mira no amor e acerta na solidão. Recomendo, inclusive. 

Me trouxe diversas reflexões. Mas devo admitir que nem foia Ana Suy que me fez voltar por aqui. É a obervação do dia a dia mesmo. 

Uma amiga está namorando faz um tempo. E de uns tempos pra cá, sem conhecimento algum, sem nenhum embasamento, eu me achei no direito de observar a relação e tirar conclusões. Como se eu não tivesse uma vida pra cuidar. Acho que todo mundo já fez isso, então não me sentirei culpada.

Eu amo o apaixonamento do cara. Amo real. Ela pode falar o que quiser, xingar, fazer birra, se jogar no chão, emitir qualquer tipo de opinião, que o cara vai estar lá. Sendo bem honesta, não sei se o contrário é verdadeiro. E, de novo, isso são vozes da minha cabeça. Aqui não tenho nenhum compromisso com a verdade, só com a minha, "taokey?".

E eu não sei se eu quereria um apaixonamento sem a pitada do dedo na cara. Mas aí entra a Ana Suy, ela disse que quando estamos apaixonados, não temos espaço para a realidade, é uma ilusão da expectativa. "O nosso amor a gente inventa", já dizia Cazuza. Mas voltando ao apaixonado...

Não sei se acredito em gente apaixonada. Gente apaixonada vê a pessoa alvo da paixão com muita positividade. Nem eu me acho tão foda assim, sabe. Eu sou meio caótica, sem foco, uma metralhadora de falácias, eu sou esquisita pra cacete. Então se alguém se apaixona por mim, e começa a achar tudo que eu faço genial, sensacional, maravilhoso, eu vou desapaixonar no dia seguinte. E sabe porquê? Porque a gente se apaixona pelo nosso espelho, e meu espelho é bem sarcástico para aceitar esse namastê todo. Quer me amar? Vem no caos que disso eu entendo.

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Para escrever

Já encarei muita folha em branco na vida. Não sei se em algum momento você já passou por isso. Acredito que sim.
Às vezes a gente meio que se perde na história que a gente está escrevendo. Não tem o personagem, parece que o personagem perdeu a motivação. Perdeu algum sonho que tinha, deixou de fazer planos, não viu lá muita motivação para continuar, e estagnou na história. Ele olha ao redor, e parece que a roda está girando para todos, menos para ele.
Fazer o personagem andar, criar, se motivar, e caminhar pela história é um ato de coragem. Colocar o coração para agir naquilo que te emociona. E quando nada te motiva? Aí é a hora da folha em branco, o olhar para o vazio, e encarar o buraco por um tempo. Entender o que está acontecendo e refletir sobre os passos deste personagem.
O que te deixou pelo caminho? Qual foi o sonho que você perdeu? Qual foi a desesperança que se abateu. Olhar milimetricamente o que está nos deixando parados.
Toda vez que eu paro no caminho, eu escrevo a história para tentar entender. Eu preciso olhar o filme completo algumas vezes. Faço a linha do tempo e percorro por ela diversas vezes. Estar triste, deprimido, faz parte da vida.  Dar atenção para este momento, também.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Avião

 Eu tenho um ranço fenomenal de gente que tira selfie em avião. E junto com ele o ranço de foto da asa. 

Na verdade eu tenho ranço de todo o ritual da viagem em si. Não acho chique! Não acho divertido. E me dá gatilho de pânico.

Mesmo sem saber pilotar, eu acho que eu vou conduzir aquela bodega melhor que qualquer piloto. 

O nome disso é controle. Eu sou uma pessoa hiper controladora, e cheia de manias. A velhice só piorou tudo.

Lembro da minha inocência infantil quando viajava com a minha mãe nas férias de final de ano. Tinha a roupinha do aeroporto pra chegar bem vestida na casa dos parentes que eu via uma vez por ano e olhe lá. Eu curtia. Queria sentar na janela, e amava viajar a noite (que era mais barato) pra ver a lua. Como viajávamos no verão, sempre tinha noites bem lindas. Era um evento. Era minha parte favorita da viagem. 

E por esta memória afetiva, eu fiz curso de comissária. E, depois de vários processos em que fui reprovada por algum profissional de saúde mental excelente, eu entendi o motivo.

Foi num verão de 2009 em que decidi passar uns dias em Salvador. 

A aeromoça me entregou uma criança. Sim, ganhei um companheirinho que estava viajando em carreira solo. Com todo meu conhecimento de aeronáutica, fui puxando assunto com a criança e contando como funcionava o avião. Ele estava apreensivo. E eu como adulto responsável que sabia tudo sobre nuvens, comecei a explicar porque estava balançando. A criança foi ficando segura. Uma hora eu avistei uma nuvem bem preta "Aquela ali é uma CB!". Não terminei de falar. O avião virou um labamba desgovernado. 

Eu como adulta, continuei acalmando a criança, até que toda minha maturidade foi se esvaindo e comecei a chorar copiosamente. O que foi seguido pelo choro da criança e de mais umas crianças que também estavam no vôo. 

Não me segurei. Acho que até me mijei um pouco, se não me engano. 

Enfim, quando finalmente pousamos, eu sabia que ali eu tinha traumatizado uma criança. Uma não, uma dezena que estava no vôo de férias.

Depois deste dia, nunca mais mantive a dignidade em avião. E aqui vai a minha lista de indignidade:


  • Eu não tiro foto em avião ou aeroporto 

  • Se tem padre ou freira eu fico apreensiva

  • Conto a quantidade de crianças e  no vôo porque eu sou uma merda de pessoa, mas Deus é gentil com crianças.

  • Não respondo mensagens de Whatsapp antes do voo porque não quero que isso seja usado em post cafona como "Nossa última conversa"

  • Eu não agradeço quando dizem "Boa viagem". Isso eu nem sei explicar. Hoje o moço do Uber ficou no vácuo. 

  • Baixo 50 filmes pra voos curtos, mas só consigo ficar abraçada com o celular.

  • Não dou descarga sentada na privada do avião porque desconfio que meus órgãos vitais serão sugados.

  • Sempre olho quem está sentado ao lado e penso na música do Belchior  "Foi por medo de avião que segurei sua mão" 

  • Tomo 2 Rivotril em voos longos e 2 Dramin em curtos. 


Eu poderia fazer uma lista infinita, mas acho que já dá pra entender meu nível de pânico. 

Escrevi este texto dentro de um avião com apenas UM Dramin e só escrevi porque tem 23 crianças neste vôo + 2 grávidas.

E enquanto eu escrevia isso, o piloto avisou "Chegamos 25 minutos antes do previsto"

Pensei "Ae, seu arrobado! Parabéns. Com certeza eu não faria melhor".


terça-feira, 9 de novembro de 2021

Maturidade filosófica

Às vezes eu passo por aqui para me ler. Não que eu seja uma gênia da literatura moderna. Passo por aqui para ver as minhas angústias. O meu senso de humor para disfarçar frustrações e desilusões. As personas inventadas contando a minha história. Diversão pura.

Li um texto meu dizendo "Eu preciso ser feliz". Ri. Afinal, quando eu tinha 20 e muitos, parecia que eu estava só esperando esse momento do feliz para sempre. Lá da minha torre discutindo o sexo dos anjos, reclamando do machismo e tomando minhas doses de fora. Brilhando na jornada do herói, e esperando o tal final feliz. Aquele momento mágico da vida que está tudo dado, tudo resolvido, tudo no script do sucesso.
Não foi bem isso que aconteceu, né mores? Não encontrei o tal príncipe encantado (pasmem, não existe), muito menos porque encontrei o melhor trabalho da vida e só faço o que eu gosto, isso também é fanfic de coach, é LinkedIn, ostentação de mentira. Isso é a positividade tóxica batendo na sua porta para te deixar infeliz por não ser positivo. 


Tomo nesse cu diariamente. Ouço desaforos, trabalho horas a fio, ganho pouco, e todas as coisas que acontecem na vida do ser humano ordinário. E aguento tudo isso sem um remédio sequer. Isso sim posso considerar vencer na vida. 

Eu dedico a minha felicidade à maturidade. Essa senhora de cabelos brancos, meio corcunda e com uma verruga no nariz. Sim, a minha maturidade parece a bruxa da Branca de Neve. Não dá pra ser madura o tempo todo. 

Uma vez, já na vida adulta, eu pedi pra minha mãe cuidar da minha vida. Estava tão pesado, tão foda ser eu mesma, que não estava dando conta. E aí a minha mãe me tirou do útero dela e disse que não ia rolar e que ela já tinha a vida dela pra dar conta. E naquele dia eu percebi que é cada um dando conta da sua vida mesmo. Mentira, não foi naquele dia. A maturidade não é um lance que te entregam numa taça, você bebe, e acorda maduro. Não, meus senhores! A maturidade te trucida, e quando você está no chão, ela olha nos seus olhos e diz "Paga esse boleto, arrombado!". Tá, não é bem assim. Mas você entendeu a metáfora. E, se não entendeu, ainda não é o momento. Volte aqui no futuro. 

Já dizia Nelson Rodrigues: "Jovens, envelheçam". A maturidade deixou eu citar o Nelsão com entendimento. Finalmente nos encontramos, Nelson. 

Entender que a serenidade da maturidade trás felicidade (isso daria um pagode anos 90 incrível), é o auge da vida!  Será que foi a monja Coen que disse isso? Depois que ela começou a vender cerveja, ganhou meu respeito. E queria citar a monja neste texto. 

Mas se por algum motivo você quiser parecer um maduro cult, use o aforismo grego "Conheça-te a ti mesmo". E é aí, neste momento, que vai encontrar a felicidade. Não é como no livro da Disney, mas é bem legal. 

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Uai tão interessante?

 Já não sei muito bem se é realmente interessante. Também não sei se a minha magnífica mente te inventou tão interessante. Pode ser. Ela estava sem muito repertório nos últimos anos até você chegar.

E ela ecoou "Uai tão interessante?". Ela está lá, passeando por uma história que nem existe. Não existe. E talvez ela nem queira que concrete-se. Conjugarei concretizar como eu quiser porque quem concretizou fui eu. 
Quero que continue aqui na minha caixa, na minha mente, no meu devaneio até eu encontrar outra pessoa pra colocar no lugar. Não ouse sair até lá. 
Não realize-se para não estragar o meu devaneio. Mantenha-se onde está  para continuar interessante. Nehuma realidade chegará tão perto do que minha mente construiu. Não me venha com realidade enquanto eu estiver sonhando. 

terça-feira, 20 de julho de 2021

David, o Bowie.

Dos grandes amores plantônicos que cultivei na vida está o Sr Bowie. Sim, ele - o David. 

Ele entrou no meu imaginário na minha primeira década de vida, depois de eu assistir o filme Labirinto - A Magia do Tempo. Se você não viu, siga sem ver, a magia já passou pra você e esse trem não volta mais. 

Uma vez, achando que seria cult, apresentei pra minha irmã mais nova. Fui ostilizada. É isso. O jovem não sabe apreciar um bom retrô. 

Não sei se foi a calça de couro, o cabelo mullet, a maquiagem, a pupila dilatada com um olho verde e outro azul, a música, não sei. Só sei que em dado momento eu estava fazendo Bowie e Vivi dentro de um lindo coração. 

Algumas crianças viram Rei Leão incontáveis vezes, e com isso são capazes de dizerem as falas do filme. Eu sabia as de Labirinto. 

Meu amor era tão genuíno que comprei um caderno, e me dei ao trabalho de escrever todas as falas. As crianças brincavam na rua. Eu? Eu fui até a locadora (se você não sabe o que é isso joge no Google), aluguei por 3 dias o filme, e fiquei ali com meu videocassete dando pause e play por dias a fio. Quando eu já estava com o roteiro do filme escrito, passei a usar falas do filme na minha vida. Eu era uma criança esquisita. Bem, não sou uma senhora muito grande coisa hoje em dia também. 

Lá pela nonagésima vez em que entrei na locadora para alugar Labirinto, o moço me ofereceu outros filmes. Disse que tinha vários, e que me faria um preço camarada. Não fazia muito sentido com tanta oferta eu sempre alugar o mesmo filme.Eu recusei veementemente a tentação de alugar "Super Xuxa Contra o Baixo Astral". E em troca da minha honra mantida, ele me deu a fita. Segundo ele só eu alugava.

Sai da locadora saltitantinho, sabe? Que dia maravilhoso era aquele? Eu tinha acabado de ganhar meu filme favorito. Se bem que pela quantidade de vezes que eu aluguei, eu merecia até o pôster do filme. 

Sinceramente eu não saberia dizer quantas vezes eu vi esse filme. Eu tinha planos ousados de casar ao som de As the world falls down, e meu marido usaria o figurino do filme. Hey, você que já quis ser meu marido, olha esse livramento. Bem, eu não casei. E nem quero casar. Mas na minha imaginação, quando eu quero romantizar qualquer coisa, ainda toca As the world falls down. E como tudo é sonho e devaneio, o Bowie ainda faz parte deste meu imaginário. Assim como unicórnios fazem parte do imaginário infantil.

Obrigada por isso, Bowie. 

domingo, 8 de novembro de 2020

Aposta no Amor

Celinha havia participado de diversos casamentos, seja como dama de honra quando ainda era criança, ou como madrinha, já na vida adulta. Acumulava nessas duas funções treze casamentos, nenhum deles o seu. Mas acreditava piamente no amor. Em algum lugar estaria seu amado, e assim como nos filmes, em algum momento se encontrariam. Era uma questão de tempo.

Já estava com seus 35 anos, o que para os tempos de Nelson Rodrigues, seria descrita como uma senhora ainda bem bonita, cabelos pretos até os ombros,  pele clara e olhos cor de mel. Isso não é importante para história. Os tempos são outros. São? 

Era destemida na missão do amor. Participava de fóruns no Facebook, tinha todos os aplicativos nacionais e internacionais, não temia pagar em dólar. Sem filhos, a chefe de enfermagem tinha pouco tempo para diversão, então entre um plantão e outro, zapeava seus aplicativos, trocava mensagens, e pensava em toda uma vida que ainda não havia acontecido. Tinha nome dos filhos, o tipo de casa que gostaria de morar, como seria seu marido, e como viveriam o seu "felizes para sempre". Como ela mesma dizia, coisas boas acontecem com pessoas boas. E se tinha alguém bom neste mundo, esse alguém era a Celinha. 

Era mais um domingo enfadonho de folga quando um homem chamado Ben Backer a chamou no messenger do Facebook dizendo que havia amado sua carta de encorajamento aos soldados americanos. 

Há um mês ela havia escrito um longo texto falando sobre coragem, amor, e seu trabalho com a Cruz Vermelha na página da U.S Army no Facebook, e desde então vinha recebendo diversas mensagens de agradecimento. 

"Olá, estou no Afeganistão, vivendo tempos bem difícieis em Ghazni. O Talibã tenta destruir a nação pela força. Seu texto encheu meu coração de amor e esperança. Muito obrigada pelo carinho - Ben Backer"

"Olá, Backer. Espero que esta mensagem te encontre bem. Soube que ao menos 8 civis foram mortos semana passada por morteros no bairro de Naw Abad. Minhas orações estarão com vocês"

Foram dois meses de trocas de mensagens, fotos e juras de amor eterno. Celinha finalmente vivia seu conto de fadas. Tinham planos para quando Backer saisse do Afeganistão. 

E em março/20 saiu a notícia em todos os jornais que segundo um acordo assinado pelos Estados Unidos em Doha, todas as forças estrangeiras deveriam abandonar o Afeganistão em até quatorze meses. 

Nos planos do casal assim que isso acontecesse, Backer viria para o Brasil. Ele era órfão, perdeu os pais ainda criança, e passou a vida em um orfanato até ir para o exército americano. Vivia queixando-se da vida de militar, e que gostaria muito de ter paz. Viver num país sem guerras, com clima tropical, e ao lado da mulher de sua vida bebendo muitas caipirinhas em praias paradisíacas.

Naquela noite ambos comemoraram a notícia. E naquele momento Backer fez uma confissão:

- Meu amor, você confia em mim?

- Claro que sim. E você, confia em mim?

- Com todo o meu coração.

- Celinha, em um palácio em Cabul, eu e o Capitão Harris encontramos uma fortuna e iremos dividir o dinheiro com mais três soldados que irão nos ajudar numa missão de resgate. Esse dinheiro estava guardado lá, e nós estávamos esperando a notícia de que poderíamos finalmente sair do Afeganistão para regatar esse dinheiro.  Eu ficarei com U$ 5 millhões. Este valor precisa sair de forma clandestina daqui do Oriente Médio. Vou precisar da sua ajuda.

- Como assim? Como eu posso ajudar?

- Vou te mandar os US$ 5 milhões numa caixa. Mas pra isso preciso que você pague o envio, o valor é de U$ 807. Eu estou no meio da guerra, sem dinheiro algum para fazer isso agora. Você consegue fazer isso por mim?

- Claro.

Celinha foi bloqueada no messenger, Backer sumiu. Por vergonha de seus amigos e familiares, ela nunca registrou ocorrência. 


Texto da série - Era Cilada

sábado, 31 de outubro de 2020

O fake nerd

 Por questões antropológicas e sexuais eu ainda uso aplicativos de encontro. E por tédio não lia as descrições.Falha gravíssima. É na descrição que está o puro creme do milho verde. É lá que está o ouro do aplicativo. 

Botei reparo em muito perfil usando "nerd".

"Sou um nerd convicto" "Um pouco nerd" "É, sou nerd" e assim sucessivamente. 

Eu venho de uma longa linhagem de mulheres que admiram este lobo solitário de uma tribo renegada por décadas. O nerd, quando o Brasil ainda tinha mato,  era uma pessoa vista como excessivamente intelectual, obsessiva por assuntos que a maioria das pessoas não se interessa, e com falta de habilidades sociais. 

Aparentemente em 2020 a roupagem do novo nerd é outra, e ser nerd virou requisito na cultura do flerte. 

Viajado, coque desconstruído, barba, roupas da moda e de preferência sustentável, gosto peculiar por músicas, filmes, e séries que ninguém conhece, quando mais desconhecido, melhor. Um leve tom bucólico num texto quase parnasiano somado à cultura pop com carteirinha vitalícia da CCXP. 

Olha, até acho interessante. Devo admitir que dou meu like sem o menor pudor. Mas fica aí a denúncia. Isso não é nerd, porra!

O nerd raíz está interessado em pesquisa científica, já fez mestrado, doutorado, fala uma língua própria, continua tendo dificuldade em interagir socialmente e fora do padrão estético da sociedade. E sinceramente? Cagando para o padrão estético da sociedade. Talvez este cara nem esteja no Tinder. Sem tempo, irmão.

Talvez este cara esteja trancado em algum laboratório estudando e buscando uma vacina para o Covid. Talvez este cara seja doutor em virologia, e...Ai, chega, não vou falar do meu crush acadêmico....

Então, em defesa dos nerds que estão sem tempo para este tipo de papo. Irmão, você que coleciona boneco de super herói, sinto em informar, você não é nerd. Respeite o nerd raíz. 

sábado, 24 de outubro de 2020

O casting do seriado

É isso. Meses de pandemia, e assim como eu, uma galera já está de saco bem cheio - compreensível, né mores? Aí você faz uma lista de pessoas que você entende como "seguras", e vez ou outra faz aquele encontro tentando o distanciamento, todo mundo se confina uns 14 dias e depois se encontra, e assim tem sido a vida. Uma chatice sem fim. 

Notei nos últimos dias que meu nível de tolerância para esta temporada da vida já está quase zero. Eu quero renovar meu casting. Quero conhecer gente nova, quero ir no fumódromo, mesmo tendo parado de fumar, quero poder fingir que estou afim de alguém em minutos de prosa descomprometida, quero dizer "Vou ali buscar uma cerveja" e demorar horas para voltar para os meus amigos porque fiz 58 novos amigos no caminho, eu quero a temporada anterior de volta. 

Eu nunca tive saco para aplicativos de paquera. Nunca tive MESMO. Não consigo, não tenho talento, e nem muita paciência. Pra mim, abrir um app de paquera, é igual o Netflix, fico horas ali zapeando pra nada. 
Seguindo a linha coach, mudei meu "mindset", decidi ser mais paciente, puxar assunto, e brilhar (hahaha) como se fosse vida real, porque convenhamos que é o que tem pra hoje. Que derrota! 

Algumas ejaculações precoces, nudes, vídeos de punheta, homens que falam o peso da rola, deprimidos, viciados em remédios, e muito tempo gasto depois, eu ainda continuo nos aplicativos. E eu me pergunto "ATÉ QUANDO, VIVIANE?"!!!!!!

Hoje é sábado, e me deu uma vontade de ser irresponsável, ir pra aglomeração, ver gente DIFERENTE, sei-lá. Vocês sabiam que até as casas de swing abriram? Em choque fiquei. Como se mantém um sexo casual com distanciamento? Se alguém souber como anda este tema, me conta que eu fiquei curiosa.

Eu não sei como está a temporada "Pandemia" de vocês, mas devo dizer que a minha anda mais parada que novela ruim do SBT. Sem fatos novos, e doida por uma renovação. Acho que vou cortar o cabelo.