domingo, 5 de abril de 2020

Corônicas - Salvando o tédio


Já fazia alguns dias que não acontecia nada. Não sei bem quantos, pois aqui da quarentena a gente perde a noção do tempo. 
Aliás, que dia é hoje mesmo? Ah, sim! O septuagésimo domingo do ano.

Mas hoje, hoje foi diferente. Hoje era de fato domingo, e nos domingos a gente não espera muita coisa mesmo.

Ouço gritos e corro para janela. Não se cai uma pena neste condomínio sem que eu saiba. Essa é a nova regra. Institui desde a quarentena. Cuido da vida de todos os meus vizinhos com apreço e curiosidade.

Bem, não dava para ouvir muito bem do que se tratava. Sendo assim, me senti na obrigação de abrir a porta para ouvir melhor. Perdi o pingo de vergonha na cara que ainda me restava.
E basta um sair, para que todos possam sair de seus apartamentos.

Eu:  - É a vizinha do 4 andar? Quem é?

Até a quarentena, eu não fazia muita ideia de quem morava aqui.

Vizinha do 51: - Sim, ela é nova. Mudou recentemente.

Ouvimos bater de porta. Eu me viro para a vizinha do 51 e com as mãos faço “shiu”.

“Devolve meu celular, minha senhora!”, dizia o Jefferson – o zelador.

Ela gritava em alto e bom tom para que todos tivessem a oportunidade de ouvir.

EU SOU UMA MULHER QUE MORA SOZINHA! NINGUÉM BATE NA MINHA PORTA SEM INTERFORNAR, VOCÊ ESTÁ ME OUVINDO??????

Eu sei que alguns não tiveram a cara de pau de abrirem suas portas, mas neste momento notei que estavam em seus respectivos olhos mágicos de porta só observando.

Eu:  – Precisamos ir lá entender o que está acontecendo?
Vizinha do 51:  - Mas por que deveríamos fazer isso?
Eu:  - Você não ouviu? Ela sequestrou o celular o Jefferson. E só Deus sabe agora o que pode acontecer.

A mulher continuava gritando sobre morar sozinha, e ele ter batido na porta sem avisar.

Eu: - Jefferson, não tente pegar seu celular!
Jefferson:  - Mas Dona Viviane, ela não pode fazer isso!
Eu: - Não, não pode. Isso é um sequestro de celular. Chame o síndico.
Jefferson: - Acho que seu Roberto não está.
Vizinha do 51: - Eu vi ele saindo.
Eu: - Como assim? Seu Roberto é idoso. Deveria estar em casa!

Vizinha do 42 sai de sua casa para entender a confusão, e começa a gritar com a mulher que gritava. Começaram a se estranhar. Entendi que era um desafeto já instituído.
Vizinha do 42 diz que o Jefferson não pode pegar o celular porque é homem, mas ela é mulher e pode encher a cara da mulher que grita de porrada.
Nesta hora o vizinho do 44 também sai de sua casa para tentar segurar as mulheres que começaram a brigar.
Eu? Bem, eu só gritava: “Gente, isso é uma aglomeração! Isso é uma aglomeração!”
Todo mundo pegou em todo mundo, e começou uma guerra campal no quarto andar.

Por questões de saúde eu só dizia para chamar o síndico Seu Roberto.
A gritaria generalizada fez com o que o vizinho policial do primeiro andar subisse, e pedisse para ela entregar o celular, e para os demais dispersarem ou ia todo mundo para a delegacia.
O policial resolveu o caso. Ao chegar no meu andar, os vizinhos estavam todos do lado de fora aguardando atualizações.

Cada um de sua porta deu sua opinião sobre a briga, falamos de séries, filmes, coronavírus, demos risadas, ganhei um bolo fresquinho da dona Teresa, e entrei no meu apartamento com o sentimento de que a treta ainda vai unir o mundo.