sábado, 29 de julho de 2017

Jimmy’s Hall


Ontem, no Abbey Theatre, vi um espetáculo incrível do teatro irlandês. O Abbey teve sua inauguração em 1904 e foi um dos primeiros teatros subsidiados pelo Estado do mundo e recebe subsídio anual do Estado Livre irlandês. E nada mais poético do que ver neste teatro a história de Jimmy (de graça é mais maravilhoso ainda)

Jimmy Gralton mudou-se para Nova Yorque após sofrer perseguição em Letrim por suas ideias comunistas. Após 10 anos, volta à sua pacata cidade natal, e por insistência dos seus amigos reabre o salão onde a população tinha debates, lições culturais e aulas de dança. A história real do único cidadão irlandês a ser deportado, trás de uma forma brilhante a história da cultura irlandesa e a importância de sua música e dança.

A fila dava a volta no quarteirão, da Abbey até a Gardiner, alguns chegaram bem cedo com suas cadeirinhas, jornais, óculos escuros e todos os apetrechos de quem quer o melhor lugar. A imprensa estava lá. Entrevistava à todos buscando impressões e expectativas. E eu ali torcendo para que ninguém falasse comigo.  Fazia tempos que namorava peças no  Smock Alley Theatre ( teatro de 1662!!!! – preciso muito ver uma peça lá), até tinha lido sobre as peças que estavam em cartaz, agora no Abbey eu sequer tinha passado na porta. Não sabia absolutamente nada sobre a peça em cartaz. O pré-requisito foi “teatro, de graça, gosto, vou!”.

E lá fiquei eu na fila monstro esperando e torcendo para ter ingresso na minha vez. O teatro tem capacidade para 450 pessoas. Dei uma medida na fila, e esperei. Fui uma das últimas a pegar ingresso.Ao entrar os atores já estão no palco tocando músicas tradicionais irlandesas. O público participa com palmas, é uma festa. O clima de salão já é instituído, musical e descontraído. Esta é a passagem para a entrada no salão do Jimmy.
Músicos/atores/dançarinos, o elenco inteiro é primoroso. Que fôlego! Lembrando que a dança irlandesa requer força e passos bem precisos, o atores fazem isso por 2 horas! Experiência pra lá de interessante. Eu falo inglês, eu entendo, mas ir ao teatro, com um tema tão peculiar, com discursos políticos engajados, exigiu um pouco mais dos meus neurônios no começo. Aí eu lembrei que era teatro, não filme, e deixei de me preocupar tanto com a linguagem falada, e passei a olhar o corporal e foi quando eu só reafirmei o quanto o trabalho do ator é maravilhoso.

As cenas são todas muito bem marcadas, coreografadas no último grau, e todas as expressões corporais da dança passam uma mensagem. Há uma cena divina no meio do espetáculo em que Jimmy reencontra seu velho amor e fazem uma dança do reencontro daqueles corpos depois de 10 anos que é de arrepiar os cabelos. Não há beijo, não há falar, mas os olhares, os movimentos dos corpos...obra de arte, minha gente!
O cenário nem se fala. Muito bem pensado. Utiliza todo o espaço, as cenas acontecem até na entrada da cochia. A iluminação faz com que você sinta todos os sentimentos que querem demonstrar, a passagem do tempo dia/noite passa por uma janela do fundo, e você tem a exata sensação do momento em que estão vivendo. Efeitos especiais? Tem, sim senhor! Uma explosão maravilhosamente coreografada com efeitos de luz, fogo e dança dos atores em câmera lenta simulando o exato momento em que atacam o salão.
Ok, ficaria horas escrevendo sobre o espetáculo, sobre as performances e etc.Sai do teatro com aquela sensação boa de “putaquepariu”, tomei uma paint e voltei pra casa pensando. O teatro fez seu papel.
Está no mundo? Vá ao teatro. Não importa se na Europa, Ásia, Oceania, América, vá ao teatro. Sempre um ótimo exercício de apreciação do ser humano!

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Eureca!

Ontem eu tive um dia pra lá de interessante!

Pode parar de ler por aqui, pois será vibe "diário adolescente". Já aviso porque tempo hoje é um troço disputado, e aí você vai dizer "Perdi tempo lendo esta merda".

Esses dias descia eu o vale, música triste no talo, vento gelado cortando a pele, TPM gritando. Não deu outra, dei aquela chorada de videoclipe. Sabe aquela que desce só uma lágrima poética? Então, bem isso aí.

Estou em crise existencial faz tempo. Aliás, eu nasci em crise existencial e nunca mais sai dela.
Eu sou complexa, dúbia e dramática. É o que tem pra hoje, minha gente. Aceitem ou deixem.

E aquele sentimento da "árvore, livro e filhos" gritando. E aí veio a pergunta "Que merda estou fazendo da minha vida?". Cada dia que passa eu não estou ficando mais nova.

De onde vim? Pra onde vou? O que eu gosto?
Clássico dos adolescentes! Adolescentes, isso nunca passa, só pra constar. A gente não descobre o mapa da vida ao ficarmos mais velhos. Muito pelo contrário, a gente vive uma porrada de coisa, aprende um monte, mas sempre tem algo que incomoda, isso é vida.

Bom, voltando ao dia depois desta explanação sobre o sentido da vida...

Meu inglês não é a oitava maravilha do universo. Entendo muito bem, aliás entendo pra caralho, escrevo nível semi-analfabeto e falo com entonação índio apache com nuances de Joel Santana (mito), mas sou mega esforçada, devo admitir.
Ontem tive uma apresentação em inglês. Ganhei a atenção pelo carisma e didática. "Bela performance, você deveria ser professora!".

WAIT A MINUTE...

Eu já fui professora! E modéstia à parte, eu era das boas. As mães brigavam na porta da escola para que os filhos ficassem na minha sala.
Pagam mal, você trabalha além das horas em que está no trabalho, precisa ler, estudar pra caramba, mas foi um dos trabalhos mais recompensadores que já fiz na vida.
Não tem absolutamente nada a ver com recompensa financeira. Tem a ver com gostar do que faz. E admito, eu gostava.

No final do dia fui para o voluntariado ISPCC Ireland (Google, crianças). Baita trabalho maravilhoso com os pequenos seres humanos. Deu vontade de começar na mesma hora. Sabe quando te falam de uma atividade e você fica mega contente e quer começar naquele momento? Foi assim.


CRIANÇAS + EDUCAÇÃO+ ONG+ ARTE = Viviane Feliz.

Agora preciso encontrar uma forma de colocar isso no liquidificador e viver disso.
Aceito opiniões, sugestões, críticas e etc.

Ajuda a tia, aê!



domingo, 23 de julho de 2017

O sentido de sentir saudade

Saudade é um lance estranho. Comentei esses dias com um amigo italiano sobre o significado da palavra. Ele fala “homesick” e de verdade não acho que esta palavra adeque-se à saudade. Saudade é diferente, saudade faz cócegas no estômago, tem cheiro, cor, sabor, trás uma nostalgia, uma vontade de estar...

Ele reclamava da Irlanda e dizia-se com saudades da Itália, mas não podia voltar por conta do trabalho. Então eu lhe disse: “A gente só tem saudade daquilo que se foi. E nem sempre aquilo era bom. Um dia, quando você estiver na Itália, vai lembrar-se da gente tomando café e reclamando da Irlanda e vai sentir saudade daqui e de mim, e eu vou sentir saudade de você. Vamos lembrar desses dias em conversas pela internet e vamos dizer – que saudade daquele tempo!”. Ele riu e entendeu exatamente o que eu queria dizer sobre saudade.
Tenho saudade de algumas coisas. Saudades dos churrascos aos domingos em que jogava conversa fora em tomava cerveja com minhas amigas.  Lembro de um dia ter reclamado “Ai, gente! Todo domingo a mesma coisa. Que saco. Vamos fazer alguma coisa diferente!”, e cá estou eu com saudade disso.

A minha casa tem um cheiro, não sei explicar. É um cheiro de minha casa. O passarinho que canta pela manhã na minha janela é o meu passarinho favorito. Ele fazia isso toda manhã. No final do dia abria a janela da cozinha e ficava olhando o sol se pôr atrás de uma árvore bem grande que tem perto de casa.  A minha cozinha tem um buraco no chão milenar, um azulejo que eu sempre digo que vou consertar e tapo com um tapetinho de cozinha, até dele ando sentindo falta. A minha casa é pequena, desajeitada, repleta de coisas que eu prometo arrumar em algum momento, e nunca acontece. Mas isso serve para eu dizer que tenho um monte de coisas para fazer. Meu sofá de bolinhas marrom e meu cobertor vermelho faziam uma parceria perfeita acompanhada de uma boa sessão de Netflix. É o meu canto. Nada especial, mas saudade pra mim é isso. São coisas simples do dia a dia que marcam quem você é.

Tomo meu chá, olho o dia carregado de nuvens cinza com prenúncio de chuva. Reviro os olhos em tédio e repito a frase “Vai chover”. Depois deste texto, olho de novo, olho com sentido de gravar na mente este momento porque quando ele passar, vou sentir saudades.

A vida é uma eterna saudade. Afinal, não podemos ter tudo.

U2 - Dublin


Não vendi meu rim, não me prostitui (até mesmo porque já não dá mais), e consegui o ingresso por um preço “ok”. Cambistas existem em todo canto do mundo - acreditem!

Mais uma vez U2 e eu – 1998, 2006, 2011 (2 shows) e 2017. Ou seja, estávamos no nosso quinto encontro. O pessoal está mais velho, eu também estou, faz parte. Mas nem por isso deixamos de aproveitar uma noite de sábado sem chuva em Dublin. 

Sentei no meu lugarzinho numerado e respeitado por todos, num estádio com ótima visão do palco, e me preparei para ver o U2 tocando em casa. E realmente eles estavam em casa. Levaram os amigos, agradeceram a presença de todos por nome como se estivessem fazendo um churras em casa. E ainda pediram para que o estádio com 80 mil pessoas cantassem parabéns para um amigo que estava completando 50 anos no sábado do “Churras do U2 em Dublin”. E foi neste clima que eu vi um dos melhores shows do U2.

Quem espera que o U2 toque todos os hits, engana-se “The Joshua Tree Tour” tem outra pegada. Não tem palcos escalafobéticos, Bono não sai de um limão, nem de uma nave, não troca mil figurinos, o palco não roda, não tem garras gigantes, não faz transmissão ao vivo para outros países, nem ligações para amigos, como já foi visto em outros shows. “The Joshua Tree” é uma ode ao bom e velho U2.

The Whole of the Moon anunciou a entrada da banda e um estádio lotado que cantou junto.
Lembro que em 2011 dei uma boa chorada com Space Oddity, 2017 não foi diferente.

Pra começar a bagaça, já tocou uma sequência foda: Where the Streets Have No Name, One Tree Hill, Running to Stand Still, With or Without You, I Still Haven’t Found What I’m Looking For, Trip Through Your Wires e In God’s Country com arranjos diferentes e todas acompanhadas de discursos políticos sobre a Irlanda, e de como atravessou de forma digna a crise recente.

Isso fica mais evidente no início do mini 'Best Of' da terceira seção, com imagens de campos de refugiados sírios enquanto toca Miss Sarajevo. Em Ultraviolet (Light my Way) clama pelo empoderamento feminino com imagens de mulheres que representam o feminismo como Simone de Beauvoir.

Depois de levar alguns (eu, por exemplo) às lágrimas, ele retoma com a sequência infalível de hits Beautiful Day, Elevation and Vertigo fazendo o estádio todo gastar o pulmão e as pernas gritando e pulando. 

E no meio de grandes hits e histórias, a banda apresentou a nova música “The Little Things Give You Away”.

Sei que foi incrível, e mais uma vez U2 me provou o porquê foi escolhida como minha banda favorita. 
Entre poesia, música pop, política, arte, o show aqui em Dublin foi tudo que eu esperava e mais um pouco.



quarta-feira, 12 de julho de 2017

A bike e eu #5

Eu sou dessas que vê algo, acha incrível, e duas semanas depois está fazendo.
Sempre achei maravilhoso aquele pessoal saudável andando de bike, tomando açaí (eu odeio), com roupas ótimas, ostentando sua bike pelo mundo. E eu sempre tive milhares de desculpas para isso.
1) SP é perigosa 2) Os motoristas não respeitam 3) Tem muita ladeira...
Umas 20 desculpas, mínimo!

Mudei para Irlanda. Acabaram as desculpas. Todo mundo, até crianças, andam de bike pelas ruas.
Olhei, olhei, olhei, passei alguns dias observando. Ciclistas. O que comem? Onde vivem? Como pedalam? Como não morrem atropelados?
E depois de todo este estudo do meio, comprei uma bike. Aí vem a parte Mazzaropi feeling.

Comprei a bike no centro da cidade (moro bem afastada do centro). O caboclo me entregou a bike e disse um "Seja feliz". Eu não tinha ideia sequer de qual direção tomar. E a última vez que andei de bicicleta, meu pai tirou as rodinhas, disse "vai", eu caí, e nunca mais voltamos a ter uma boa relação - a bicicleta e eu. Fim.
Então, por quê raios eu comprei uma bicicleta? Porque eu sou brasileira e não desisto nunca.

Respirei fundo e me joguei no meio dos carros. Sempre uma oração na cabeça. E como Deus é grandioso, não me aconteceu nada.
Quando me senti segura, botei logo uma música para acompanhar e aí foi lindo.

Só que eu não tinha percebido um negócio mega importante. Uma coisa é você andar alguns quarteirões de bike, outra coisa é você usar como meio de transporte e pedalar longas distâncias. E é aí que a gente descobre que o plano não é tão plano assim.

Lá pelo Km 10 eu já estava morrendo. Eu não estava preparada para este evento, fisicamente falando. Já senti vontade de jogar a bike no chão e sair andando.
Aí você percebe que o caminho a pé é diferente do pedalando porque as ruas são contra- mão, e aqui o povo leva a sério esta bagaça. Bike segue a mesma regra de carro. O google maps decide te sacanear pra ver o quanto você quer mesmo pedalar. Aí você pedala mais 7 Km e a bunda começa a dar sinal de que não está nada bem. Suava feito uma porca! Já comecei a pensar que tipo de resgate poderia ser feito: táxi, helicóptero...porque não se entra no busão de bike.
Quando já estava perdida para um caralho, cogitei vender a bike por qualquer euro e pegar um busão.
Foi aí que Deus liberou a internet. Definitivamente era um teste divino.

Pedalei como se não houvesse amanhã. Porém, sempre há um amanhã.
Cheguei em casa que dava para torcer a camiseta. Dificuldade extrema para sentar no assento sanitário e as pernas com vida própria. Só pensava que no dia seguinte teria mais.
Acordei rezando para chover, já estava com a desculpa pronta - não pedalo na chuva. Fez um sol marroquino. E lá começamos uma nova saga. E assim tem sido, todo dia uma história com ela. Estamos nos conhecendo.
A gente não está num relacionamento sério. Eu não consegui assumir a bike como meu meio de transporte favorito e maravilhoso, mas não vou desistir tão fácil assim.