quinta-feira, 14 de maio de 2020

Comunicação muito violenta

Desde 2018 eu notei que tenho entre alguns dos meus “chegados de rede social” um alinhamento forte junto ao berrante que clama os gados.
No começo eu achava engraçadinho. E por alguns momentos duvidei de tudo que aprendi, e fui atrás para ver se realmente a Terra era redonda, e é.

Então ficava pensando o que levaria essas pessoas que em algum momento da vida eu convivi, e até cheguei a gostar, serem tão alinhados com as ideias do presidente fascista.

Em 2018 eu tinha uma paciência invejável. Sempre debatendo com carinho, amor e empatia. Juro que eu tentava entender, nunca mudar a opinião ou entrar numa disputa para provar que eu estava certa.

Ouvi de tudo. E ouvi mesmo. Ouvi com atenção e dei a devida seriedade que as pessoas davam a temas como:

o Mamadeira de piroca. Realidade ou ficção?
o   Educação vem de casa. Os pais precisam ensinar seus filhos, isso não é papel da escola
o   “Na nossa época não se falava tanto de sexo” – Nesta eu perdi a linha e disse “POR ISSO VOCÊ FICOU GRÁVIDA AOS 16 ANOS!”
o   Eu não aguento mais 4 anos de PT
o   Está tudo muito solto. Precisamos de regras.
o   Essas bolsas acabam com o País. Ninguém quer trabalhar mais.


Poderia fazer uma lista gigantesca de tudo que ouvi em 2018. E usei a comunicação não violenta em todos os momentos.

Em 2020 em meio a uma pandemia, me arrependo de não ter dado um tapa bem dado na cara deste bando de filha da puta que votou no Bolsonaro com a premissa de “PT nunca mais” 

Agora esses porras choram porque vai ter Enem sem ter tido uma porra de uma aula decente. Pedem ajuda para não perderem seus empregos porque a economia está um lixo. E já estava, coleguinhas, 2020 não seria um ano incrível NEM FODENDO.
Ficam chateadinhos porque não temos um plano Federal para sairmos desta merda de pandemia.
Xingam o "presidente" porque não respeita a quarentena. 
Temos uma secretária da cultura, e SECRETÁRIA, porque a Cultura não merece um Ministério pedindo para sermos leves em meio a milhares de doentes e mortos. 
A ZONA DO CARALHO que está o Ministério da Justiça. Um quintal do Bolsonaro!
O Ministro da economia capengando porque não sabe o que fazer com a economia. O ultraliberalismo no meio de uma pandemia não funciona. Paulo Guedes é um meme do John Travolta perdido.
A ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos pediu a PRISÃO dos Governadores pelo twitter e vem com a pérola de que poucos moradores de rua têm Covid porque ninguém pega nas mãos deles.
Abraham Weintraub arrumou confusão com a China, usou A TURMA DA MÔNICA para ser desrespeitoso, diz que o  Enem é uma competição e manda as pessoas simplesmente estudarem. É um "e daí?" para a maioria dos estudantes.
Aliás, este é o Governo do "e daí?"

Eu poderia passar horas escrevendo, HORAS! Porque eu estou bem puta. Então, seus GADOS DO CARALHO, TOMEM EM VOSSOS CUS. 
A culpa de termos o elenco da Fazenda no Governo, não é minha. Ufa, estava cansada de ser educada.

domingo, 5 de abril de 2020

Corônicas - Salvando o tédio


Já fazia alguns dias que não acontecia nada. Não sei bem quantos, pois aqui da quarentena a gente perde a noção do tempo. 
Aliás, que dia é hoje mesmo? Ah, sim! O septuagésimo domingo do ano.

Mas hoje, hoje foi diferente. Hoje era de fato domingo, e nos domingos a gente não espera muita coisa mesmo.

Ouço gritos e corro para janela. Não se cai uma pena neste condomínio sem que eu saiba. Essa é a nova regra. Institui desde a quarentena. Cuido da vida de todos os meus vizinhos com apreço e curiosidade.

Bem, não dava para ouvir muito bem do que se tratava. Sendo assim, me senti na obrigação de abrir a porta para ouvir melhor. Perdi o pingo de vergonha na cara que ainda me restava.
E basta um sair, para que todos possam sair de seus apartamentos.

Eu:  - É a vizinha do 4 andar? Quem é?

Até a quarentena, eu não fazia muita ideia de quem morava aqui.

Vizinha do 51: - Sim, ela é nova. Mudou recentemente.

Ouvimos bater de porta. Eu me viro para a vizinha do 51 e com as mãos faço “shiu”.

“Devolve meu celular, minha senhora!”, dizia o Jefferson – o zelador.

Ela gritava em alto e bom tom para que todos tivessem a oportunidade de ouvir.

EU SOU UMA MULHER QUE MORA SOZINHA! NINGUÉM BATE NA MINHA PORTA SEM INTERFORNAR, VOCÊ ESTÁ ME OUVINDO??????

Eu sei que alguns não tiveram a cara de pau de abrirem suas portas, mas neste momento notei que estavam em seus respectivos olhos mágicos de porta só observando.

Eu:  – Precisamos ir lá entender o que está acontecendo?
Vizinha do 51:  - Mas por que deveríamos fazer isso?
Eu:  - Você não ouviu? Ela sequestrou o celular o Jefferson. E só Deus sabe agora o que pode acontecer.

A mulher continuava gritando sobre morar sozinha, e ele ter batido na porta sem avisar.

Eu: - Jefferson, não tente pegar seu celular!
Jefferson:  - Mas Dona Viviane, ela não pode fazer isso!
Eu: - Não, não pode. Isso é um sequestro de celular. Chame o síndico.
Jefferson: - Acho que seu Roberto não está.
Vizinha do 51: - Eu vi ele saindo.
Eu: - Como assim? Seu Roberto é idoso. Deveria estar em casa!

Vizinha do 42 sai de sua casa para entender a confusão, e começa a gritar com a mulher que gritava. Começaram a se estranhar. Entendi que era um desafeto já instituído.
Vizinha do 42 diz que o Jefferson não pode pegar o celular porque é homem, mas ela é mulher e pode encher a cara da mulher que grita de porrada.
Nesta hora o vizinho do 44 também sai de sua casa para tentar segurar as mulheres que começaram a brigar.
Eu? Bem, eu só gritava: “Gente, isso é uma aglomeração! Isso é uma aglomeração!”
Todo mundo pegou em todo mundo, e começou uma guerra campal no quarto andar.

Por questões de saúde eu só dizia para chamar o síndico Seu Roberto.
A gritaria generalizada fez com o que o vizinho policial do primeiro andar subisse, e pedisse para ela entregar o celular, e para os demais dispersarem ou ia todo mundo para a delegacia.
O policial resolveu o caso. Ao chegar no meu andar, os vizinhos estavam todos do lado de fora aguardando atualizações.

Cada um de sua porta deu sua opinião sobre a briga, falamos de séries, filmes, coronavírus, demos risadas, ganhei um bolo fresquinho da dona Teresa, e entrei no meu apartamento com o sentimento de que a treta ainda vai unir o mundo.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Corônicas - Seu Silva e a quarentena.


Ele enlouqueceu. Foi esta a conclusão que a família do Seu Silva chegou.

Passaram dias pedindo a seu Silva que ficasse em casa, devido as circunstâncias, mas seu Silva se disse atleta. E sabe como é, um atleta tem no máximo uma gripezinha, um resfriadinho...

E não se sabe muito bem o motivo, mas naquela manhã de quarta-feira Seu Silva estava especialmente enlouquecido.

Colocou sua bermuda de domingo, a blusa do seu time do coração, e saiu com o carrinho de rolimã de seu neto.

- Pai, onde você vai?

- Viver a vida. Me deixa.
- O senhor consegue viver a vida aqui dentro de casa, por favor?

- Isso não é vida, Laura. Pelo amor de Deus, sabe. Eu já tenho 69 anos, sabe. Você não manda em mim. 

Saiu, bateu a porta, sem tempo de qualquer resposta da filha. Minutos depois, o telefone da casa toca. 

- Oi, Laura. É a Jurema. Tudo bom? Seu pai saiu de casa?

- Saiu. Nem sei o que dizer, pegou o carrinho de rolimã do Ian, e disse que iria viver a vida.

- Então, seu pai está descendo a rua aqui de casa sem parar de rolimã cantando alto e incomodando os vizinhos
.
- Desculpe, Jurema. Não sei o que fazer com ele. Já liguei para a psicóloga, falei com a professora de hidroginástica também. Ele adora a aula de hidroginástica, mas ela disse que ele estava faltando, o que eu achei um absurdo porque ele sai de casa sempre dizendo que está indo para aula.  

- Ai, Laura. Aqui também não está sendo fácil. Papai apareceu com uma tatuagem mês passado. Vira e mexe sinto um cheiro estranho do quarto dele. Acho que está até se envolvendo com maconha...

- Sério, Jurema? O que vamos fazer com nossos idosinhos, heim?

Durante a conversa das vizinhas Seu Silva chega em casa e grita logo da entrada.

- LAURA, PARA DE FOFOCAR NESTE TELEFONE! E só quero avisar que a Isolda vai vir aqui mais tarde, e não quero deselegância da sua parte. Ela é minha namorada e vai vir me ver quando quiser. E vai dormir no meu quarto, sim. Todo mundo que eu conheço está aproveitando a quarentena!

Laura desligou o telefone, correu até o Seu Silva, e fez o que deveria ter feito antes do surto do rolimã.

- Chega! Vai tomar banho, e vai pro seu quarto! VOCÊ NÃO É TODO MUNDO.

E foi assim que seu Silva entrou em quarentena.

terça-feira, 24 de março de 2020

Corônicas - Enzo, seu arrombado.

A mãe grita diretamente da cozinha, enquanto o pai resolve cortar as unhas dos pés no meio da sala.

- Eu ouvi a porta bater? EU OUVI A PORTA BATER? Quem é o filho da puta que está saindo de casa?

O silêncio permaneceu.

- Ernesto, seu merda! Além de cortar este casco, você consegue me passar informação de quem saiu de casa? Eu estou fazendo comida.

- Ninguém saiu, Norma. Ninguém saiu.

O pai não havia percebido que o filho havia passado pela porta de tão entertido que estava com o artesanato de suas unhas.

Mãe não dorme no ponto. Da janela da cozinha observou Enzo saindo do prédio indo em direção à portaria.

- SEU FILHO DUMA PUTAAAAAAAAAAAAAAAAAA! DÁ PRA SUBIR AGORA??? NINGUÉM SAI DESTA PORRA DE CASA, ESTÁ ME OUVINDO?????

Enzo grita da portaria fazendo com que todos vizinhos corram para a janela do condomínio.

- AQUI É RESISTÊNCIA, MÃE. NÃO PEGA NADA!

Dona Norma não deixa barato, e com o amor de mãe que lhe é nato grita de volta.

- ENZO, SEU ARROMBADO. EU QUERO QUE VOCÊ SE FODA. ESTOU PREOCUPADA COMIGO.

Agora os vizinhos se tocam que Enzo pode ser um transmissor potencial para todos os velhinhos do prédio e começam a interferir na briga.

Dona Julia do 72, uma senhora doce e meiga que costuma tomar sol no jardim do prédio tira forças de seus pulmõezinhos idosos e "grita":

- MENINO, SE EU PEGAR ESTA MERDA MEU NETO TE MATA, TÁ OUVINDO?

O Roberto do 92 também dá sua contribuição:

- VOLTA PRA CASA, SEU ARROMBADO!

E de repente numa comunhão nunca vista no condomínio Miraflores, todos vão às suas janelas com panelas, apitos, e em uníssono começam:

- NÃO SEJA INDELICADO, VOLTA PRA CASA SEU ARROMBADO!

Dona Norma vendo aquela comoção, gritou pra Ernesto que continuava fazendo suas unhas.

- Estão xingando nosso filho, Ernesto? Faz alguma coisa.

- Norma, ele já é adulto. Ele que se defenda.

Norma abandona o avental, e desce as escadas correndo. Ela não é doida de pegar o elevador.
Pega Enzo pelas orelhas, como se o adolescente de 15 anos tivesse 5 anos de idade novamente, levanta a cabeça para o condomínio, que continua gritando, e diz:

- O ARROMBADO É MEU, E SÓ EU POSSO CHAMAR ASSIM.

Norma joga Enzo dentro de casa. E diz:

- Passou a vida trancado nesta porra de quarto batendo punheta, agora quer sair? Deixa de ser do contra, seu arrombado. Entra neste quarto e não me enche o saco.

E assim começou a quarenta de Enzo.

Just me myself and I

Dia 19/03 eu tive uma crise de pânico. Um misto de falta de ar com sensação de morte que vão revezando entre eles até você surtar.

Eu tinha programado férias. No  momento em que eu escrevo eu deveria estar no Deserto do Atacama tomando cerveja com amigos e celebrando minhas férias.

Agora estou em casa, trancada, e vendo o mundo colapsar, e tentando não surtar. 

Lá no já remoto ano de 2001 eu desenvolvi uma crise de pânico. A sensação de que a vida está passando e eu ainda não havia ganho meu Nobel da Paz, sabe? 

Estava ficando velha, e não tinha realizado "nada". Dá um tom de desesperança, a impotência, e sem forças para continuar lutando. O ar falta. É um pico de ansiedade tamanho que a gente esquece do básico, respirar.

No dia seguinte fiz um zoom com alguns amigos, falamos um monte de besteiras, bebemos e demos muita risada. 
Quando desliguei aquele zoom, eu já estava com corona. Não, amigos, não estou com corona (ainda). Mas eu tinha todos os sintomas, principalmente a falta de ar. 

Eu moro sozinha, e comecei a pensar que se eu ficasse sem ar a ponto de falhar, eu morreria estatelada no chão, e com todos focados no corona, só lembrariam do meu corpo em meses, aí eu já estaria putrefada. E esses pensamentos não ajudavam. Foi aí que eu fui ao espelho, me olhei bem nos olhos e tive uma conversa bem séria comigo:

- SUA FILHA DA PUTA, PARA COM ISSO! VOCÊ JÁ SABE O QUE É. VOCÊ ESTÁ EM CRISE. TOMA UMA PORRA DE UMA ÁGUA E RESPIRA, RESPIRA, RESPIRA....

Fui acalmando. Liguei um mantra, acendi um incenso, e respirei.

Não, não faço yoga. Não, não medito com frequência, não faço relaxamento, não faço cazzo algum.
Mas minha cabeça sabe que isso é sinônimo de paz. E funcionou.

Acalmei. 

Sabe, não é fácil pra ninguém. Pra ninguém mesmo. E eu sei que não existe comparação. Cada um vai passar por este momento a seu modo. 

Dicas? Tem zilhões na internet. Só pesquisar. 

Mas ninguém, ninguém, NINGUÉM, ouviu? Te conhece melhor que você mesmo. Converse com você. Você vai saber o melhor caminho a tomar. 

Sério. Converse com você. Uma hora você vai descobrir que você é uma PUTA COMPANHIA FODA PRA CARALHO.

Boa quarentena, e eu vou voltar a escrever ;-)


domingo, 15 de dezembro de 2019

Vira Lata Caramelo

E lá vai ele todo faceiro andando pelas ruas.

Parece que fez um novo amigo. Não, não fez. A relação efêmera do Caramelo é sempre intensa. Pra mim, humano que se acha racional, o julga um interesseiro.

Caramelo não sabe dessas coisas humanas. Essas classificações não lhe fazem o menor sentido. Caramelo antes de mais nada é um sincerão.

Consegue o que quer, faz um afago e vai viver uma nova aventura.

Corre atrás de ônibus, faz farra com as crianças. Come o que está à sua disposição, sem discutir se é bom, se está  de seu agrado. Supre sua necessidade e segue abanando seu rabinho pelas ruas.

Uma hora ele cansa, deita no chão, e sem pedir, sempre aparece alguém para lhe fazer um afago. Ele recebe e às vezes dá também. Não se sente obrigado a nada. Tira seu cochilo no meio de um dia com muitas atividades.

Acorda sem saber que horas são, e que dia da semana é.
Observa os humanos passando em seus passos em marcha de corrida. Fita com alguns que sequer pararam para uma coçadinha em sua cabeça. Outros lhe dão comida, outros quase lhe acertam com paus, ou qualquer objeto que o possa ferir.

Caramelo deveria ser mais rancoroso, penso eu. Se eu fosse ele, talvez não quisesse mais me relacionar com humanos. São imprevisíveis demais.

De memória curta e destemido, ele segue seu caminho sempre em frente.

Corre sem sentido, rola sem sentido, come sem esperar, espera para comer, bebe sua água como se fosse a última vez que beberá água.

Brinca com as crianças, toma banho de mangueira, de chuva, de fonte, ou seja lá o que lhe aconteça.

Com o focinho em riste e uma dignidade de quem pouco se preocupa com o amanhã.

O Caramelo segue sua vida numa tarde de domingo, nunca solitário. Firme, forte, imponente, sempre em busca...Sempre em busca...Sempre em busca...O caramelo não busca, ele vive.

O Caramelo sabe mais da vida do que eu.