quarta-feira, 5 de março de 2008

Old Stone

Foi em 1998. Abertura do show dos Rolling Stones. Estava no auge da minha adolescência, e aguardava um dos maiores shows da minha vida.
O cara que estava no palco não era nem sombra do que eu ouvia falar sobre ele.Torci para que acabasse logo. Foi um show cansativo com músicas de quando meus pais nem namoravam.
Acho que este é o grande problema de Dylan, falta inovação.
Num mundo em que Madonna teve que mudar seu estilo “Like Virgin” e Michael Jackson ficou branco, talvez fosse hora de Bob Dylan inovar seu repertório.
Não adianta mudar o andamento das canções antigas, é hora de fazer algo novo.
Sulpicy, que também é Jurássico, vai ao show. Vai cantar todas, ficar emocionado, chamar Bob Dylan de poeta. E, se bobiar, ainda vai cantar “Blowing in the Wind” com ele. Sabe, acho que isso faria o show valer a pena.
O cantor que já foi chamado de “cantor de protesto” não tem mais o que protestar. Bem, ter ele tem, mas não está no barato.
A chamada do jornal vai ser algo bem inusitado como: “Encontro de gerações”. A repórter vai entrevistar um casal que se apaixonou ouvindo Bob Dylan. Hoje, cem anos depois, levam os filhos e os netos para assistirem o show. Sacal.


terça-feira, 4 de março de 2008

A perfeita imperfeição

Ela dizia que era mulher de um homem só. Esta era a sua filosofia e nada mudaria seu modo de pensar.

Estava cansada de pseudo-relações. Cansada. Esta era uma palavra que demonstrava bem seu estado.


Promessas falsas, amores impossíveis, relações mal acabadas. Tudo complexo demais para o que ela almejava desde a infância. Uma relação. Uma casinha com papai, mamãe e filhinhos. A típica família do comercial de margarina.

Já tinha trinta e poucos anos. Digo trinta e poucos porque jamais sabemos a idade correta de uma mulher de trinta e poucos.

O médico a havia alertado sobre a gravidez. Uma gravidez de risco de uma mulher de trinta e poucos. Afinal, era a sua primeira gravidez.

Trinta e poucos anos e mãe solteira. O castelo havia sido desfeito no momento em que o exame havia dado positivo. Teria um filho cujo pai havia sumido assim que soube da notícia. Nada de cafés da manhã com a família reunida. Nada de comemorações de Natal com todos à mesa esperando o peru.

Tudo tinha esvaído-se junto com o resultado de uma gravidez não programada.
Decidiu que seria mãe. Nada de amores conturbados, nada de relacionamentos, seria mãe e ponto final.

O teatro estava vazio. Havia ido somente porque havia prometido a César que iria.
A peça não foi ruim, mas estava longe de ser uma peça boa.
Na saída do teatro foi parabenizar o amigo iniciante. Foi apresentada a todo o elenco. Já havia cumprido sua missão.

Silvia aguardava seu táxi. Era impossível não reparar nela. Cabelos longos e ruivos, vestido preto e cumprido. Olhos azuis turquesa. Dentre amadores, ela tinha sido a salvação de um texto mal escrito.
Aproximou-se e comentou sobre a peça.
O táxi chegou no momento em que ela a elogiava. Nada melhor para o ego de um ator que elogios. Ofereceu carona no táxi.

A chuva caía torrencialmente. Junto com ela, o trânsito de São Paulo parava. A conversa fluía. Os sorrisos também. As idéias eram parecidas, a vida às vezes é tão ingrata com a escolha do sexo. Se Silvia fosse homem, seria perfeita, ou não.

Era uma linda manhã de domingo. Como sempre, estavam discutindo sobre música, teatro, cinema, eram os assuntos favoritos.

Uma bela manhã de domingo em família. Tudo que ela sempre sonhara. Não exatamente a do comercial de margarina, mas muito feliz.

- Sílvio, passe a margarina para a mamãe?

Estado de Circo

Vai até dia 24 de março, o período de participação na segunda edição do Concurso do Miniconto, uma promoção que comemora o aniversário de 2 anos do Circo.

Ano passado eu participei, e ganhei um dvd que até hoje só vi uma vez. Meu parelho de dvd se recusa a fazer leitura de coisas boas (Beatles, por exemplo).

Mas não se acanhe. Este ano o prêmio é um livro. Um exemplar do livro Mofolândia – Volume 1, de Antonio Carlos Cabrera.

A regra é clara. Para participar, escreva um miniconto que tenha entre 140 e 150 caracteres (com espaços) e envie até dia 24 para o dono do circo- palhaço Rodrigo.

Lembrando, eu lerei todos, pois faço parte do excelentíssimo juri.

Maiores informações: Estado de Circo.

Um dia no território "inimigo"

Não, não vou falar de futebol. Estou desiludida!

Passei um dia inteiro no território masculino. Cercada por 15 homens.
E quando eles são a maioria, fica fácil de conhecer o habitat masculino.

Homens adoram colocar apelidos vexatórios uns nos outros: Pombinha, Zé das couves, Zóio, Carcará e por aí vai.
Quando o apelidado em questão detesta o apelido, melhor ainda.
Adoram falar mal da patroa. Namorada, esposa, ficante, não importa.
E se a patroa ligar no meio de uma reunião masculina, ferrou. A pessoa que recebeu a ligação é motivo de piadas homéricas.

Dizem que fofoca é coisa de mulher. Mas acredito que isso não seja privilégio só do sexo feminino. Homens também são fofoqueiros. A diferença é que eles conseguem fazer com que a fofoca deixe de ser fofoca, e seja apenas um comentário. No fundo é fofoca, e eles sabem disso.

Fazem brincadeiras toscas como cuecão. Contam os podres uns dos outros. Falam de futebol, mulher, bebida e trabalho. Mais ou menos nesta ordem.

Fazem todo tipo de porqueira que uma pessoa possa imaginar. Até aquele cara extremamente Lord que você imagina que jamais faria, faz.
Porque quando eles estão em bando, se transformam. É assustador.

É de se entender quando o cara vira para você e diz que é uma reunião masculina. Não insista para ir, não é muito agradável.

Assim como as mulheres, eles precisam de um tempo com as pessoas do mesmo sexo.
É o momento em que eles podem ser eles mesmos. Falar a quantidade que eles quiserem de palavrões, falar mal da ex, da atual, xingar o chefe e toda aquela coisa máscula.

Um dia no clube do Bolinha me fez perceber que o clube da Luluzinha é bem light.

O que nós fazemos?
O mesmo que os homens, mas de forma muito mais educada. Sem cuecão, claro.

O clã feminino

Pior do que aprensentar a pessoa amada aos pais, é aprensentá-la às amigas.

Você enrola, enrola, mas uma hora o inevitável acontece, ela será aprensentada.

Elas sentam no tribunal, ou melhor, na mesa de bar, e esperam o candidato.
Antes disto, é feita uma análise poderosa utilizando todas as ferramentas disponíveis no mercado. Orkut é uma delas.

Ultimamente tenho levado um bloquinho de notas para este tipo de avaliação. Porque, na verdade, o que menos queremos, é que uma pessoa muito querida sofra. Justamente por isso a análise é bem cautelosa.

Pensando sobre isso, descobri que todo mundo, mesmo que inconscientemente, faz isso - analisa os candidatos dos amigos.

Diferentemente dos pais, os amigos falam na lata. E por conhecerem seu histórico amoroso melhor que seus pais, se sentem na obrigação de alertá-lo.

De uns tempos pra cá tenho sido mais maleável com os candidatos. Porque a pessoa já fica numa situação bem constrangedora. Intimamente ela sabe que está sendo avaliada. E sob pressão, ninguém consegue sentir-se à vontade.

Querendo, ou não, ser aprovado pelos amigos é muito importante. Aqueles seres bêbados que te avaliam, são a família da pessoa que você ama. Sendo assim, é muito importante que eles gostem e te aceitem. Porque é com essas pessoas que ela convive. E, inevitavelmente, conviverão com você.

No final a avaliação é bem simples. A pessoa avaliada só precisa ter os pré-requisitos para fazer um amigo feliz. Pode até gostar de forró, ler Paulo Coelho, só tomar suco, ser vegetariano, ter zilhões de tatuagens e etc.

O mais importante de tudo, é percebermos que o candidato fica com os olhos brilhando toda vez que fala de um ente da nossa família.
Amigos, ao menos pra mim, são a minha segunda família. São poucos, e eu os escolhi com muito carinho. Às vezes bem italiana e passional, mas querida.


segunda-feira, 3 de março de 2008

O primeiro

O primeiro clássico é como o primeiro sutiã, a gente nunca esquece.
Depois de muitos anos, fui ao estádio ver uma partida de futebol.
E, se meu pai fosse vivo, me deserdaria.
Não tenho amigos coritianos, preciso rever minhas amizades. Todos são palmeirenses.
Eu estava com vontade de ver o jogo, mas ir sozinha, sem a menor chance.
Eis que surge o convite por parte de um palmeirense. Aceitei.
E lá estava eu, no meio da Mancha Verde. Meu Deus, que heresia!
Era a minha única chance de ver o tal clássico sem ser massacrada, na companhia dos porquinhos.
Não adianta. Eu nunca, jamais, em hipótese alguma, vou tocer para outro time.
Em algum momento da década de 80 meu pai disse que eu era corintiana. Desde então, não consigo cogitar outro time. Ainda mais o Palmeiras.
Cercada por um verde de doer os olhos. Bem a frente, a bandeira da Gaviões, e os gritos da torcida. Deu vontade de pular a cerca. Mas se eu fizesse isso, este blog nunca mais seria atualizado.
Não deu. Tentei disfarçar para não ser espancada. Mas gritei gol. Mesmo que este gol tenha sido anulado, eu gritei. Todos me olharam. Pronto, hora de apanhar. Nada aconteceu. Devem ter pensado: "Mulher, não sabe nada de futebol. Confundiu o time".
A pelada foi medíocre. Nada de espetacular. E, para um clássico, foi bem ruim.
Mas fiquei admirada com a torcida corintiana. Aquilo não é uma torcida, é uma religião. Mesmo depois do gol do "Pelé branco" (sic) - Valdívia - a torcida continou gritando. E eu queria tanto gritar com eles, chorar com eles, mas eu estava do lado verde. E me abraçaram, cantaram a porra do hino, beijaram a bandeira, a camisa. Mas isso eu não fiz, seria demais.
Noventa minutos depois. Lá estava eu, com a porra da camisa verde andando e cantando o hino.
Aposta, odeio apostas!
Musiquinhas e comentários do lado verde:
Ão, ão, ão, segunda divisão!
Boi, boi, boi, boi da cara preta. Segunda divisão de camisa violeta.
Não vi pelé, mas vi Valdívia.
Não vou parar de rir de ti, gambá. Sou palmeirense.
Chora gambá, chora.
Experiência bizarra. Mas mesmo assim, não te abandonarei!