Em algum momento da sua vida alguém vai usar um bisturi em você.
Sei que parece dramático, e é horrível pensar sobre este tema, mas é importante.
Em 30 anos nunca tinha aberto nada. Epa, peraí, a frase ficou tosca e inacreditável. Vamos reformular. Em 30 anos, que eu me recorde, nunca havia feito uma cirurgia. E acredito que lembraria se tivesse feito.
Eis que chegou a minha vez. Pilotos e médicos me assustam. Parece uma comparação imbecil, e é. Mas ambos me assustam mais do que palhaço, que também me assustava muito antes dos 8 anos de idade.
O piloto viaja diariamente com centenas de pessoas dentro de um avião e e ele faz isso com a maior naturalidade do mundo.
Às vezes tem um defeito no avião e ele diz "Ok, vamos decolar!". A minha vontade é de dizer "Hey, peraí mermão. Vamos decolar o caralho. Eu não saio do chão enquanto não estiver tudo 100% ok!". Mas eles são filhos da puta, fazem isso com a maior naturalidade do mundo. Voam faltando peça, voam com um motor, voam até sem asa (bem, isso foi exagerado).
Com os médicos a mesma coisa. Ontem, ao fazer minha primeira cirurgia com anestesia local, a enfermeira disse:
- Hum (cara de que deu merda). Dr, o foco não está bom.
Eis que entra uma outra enfermeira:
- Xi, menina, o foco não está bom desde a semana passada.
Um momento. Deixa eu ver se eu entendi. A porra do foco não está bom e mesmo assim vão cortar o meu joelho? É isso mesmo?
A enfermeira volta a dizer:
- Dr, o foco não está bom.
Ele, como se isso não tivesse a menor importância diz:
- Vou precisar de um número 8, viu?
E como se o foco não fizesse diferença na vida dele, tocou o barco e abriu meu joelho na maior. Enquanto abria, batia o maior papo sobre a virada de tempo no feriado.
E lá estava eu, a mortadela, ouvindo aquele assunto banal. Falar do foco, que era de fato o mais importante, nada.
Eis que decidiram que a mortadela poderia participar do assunto:
- Olha, vai ficar uma cicatriz.
Fiz cara de pouco caso. Foda-se, já abriu esta merda, agora manda vê.
E ao abrir o joelho, eis que meu joelho decide se vingar do pouco caso que fizeram dele. Espirra um jato de algo que faria filmes de terror contos infantis, bem na cara do médico. Admito que senti um pouco de prazer. Nem se eu tivesse maquinado isso, aconteceria com tanta precisão.
E como se o fato do meu joelho estar aberto jorrando algo amarelo com sangue não tivesse a menor importância, ele saiu da sala para lavar o rosto.
Sim, meus caros, se o foco estivesse ajustado, ele não teria tomado na cara.
Depois o efeito exorcista, ele finalmente falou:
- Este foco está ruim, né?
Como não houve resposta da enfermeira, ele continuou o monólogo.
- Viviane, acho que não vai resolver e é bem capaz do nódulo voltar. É um "ragatanga acerehê" (isso mesmo, não entendi porra nenhuma do que ele disse- então fiz a livre tradução).
Já não queria mais papo com ele, nem com a enfermeira, e nem com o meu filhote Alien que ele fez questão de me mostrar no final. Acho que ele quis tornar inesquecível, só pode.
O que os pilotos têm a ver com tudo isso?
Tem que são tão filhas da puta quanto os médicos. Quanto mais medo você demonstra, mais eles querem te sacanear.
Lição aprendida: Nunca demonstre medo à médicos ou pilotos de avião.
O meu joelho? Ah, está aqui, doendo pra cacete.
quinta-feira, 3 de maio de 2012
sábado, 25 de fevereiro de 2012
O tempo e as indefinições
O tempo tem passado muito rápido. Lembro quando tinha todo o tempo do mundo para tomar certas decisões. Física, química, dançarina de boate, dona de boteco, historiadora, astronauta. Era uma gama enorme de opções, e eu tinha todo o tempo do mundo para escolher.
Agora as opções são menores. Eu sou maior, e não me sinto assim. Ainda me sinto a mesma garotinha que acreditava que ainda havia tempo para tudo, mesmo não tendo mais. Ruim é quando você se dá conta que este sentimento é ilusório, não temos todo o tempo do mundo.
Então você entende que é melhor aproveitar todos os momentos como se fossem últimos, aproveitar tudo com bastante intensidade porque não sabemos se amanhã ainda teremos este tempo. Mas como aproveitar? Escolhe-se algumas porções de coisas que nos façam felizes. E quando aquilo que nos faz feliz não depende exclusivamente de nós? Mas espere, felicidade não deveria ser algo interno? Quem é feliz é feliz e ponto final?
Estes livros mentem. Felicidade é um negócio bem mais complexo do que se pode imaginar.
Mas voltemos ao tal tempo. Ele é o vilão e o mocinho. Bom para esquecermos coisas ruins, ruim quando ele demora a passar em momentos que deveria voar, triste quando ele passa e percebemos que não conseguimos o que queríamos - não atingimos a tal meta de vida. E quando não se tem uma meta pessoal? E quando se está tão perdido que não sabe exatamente o que fazer, pra onde ir, com quem contar? Passar o tempo é indigno de vida. Não combina com felicidade.
Tenho blog desde sei-lá quando. E você que costuma me ler, saiba, eu não sou feliz. Não tenho receita para a felicidade. Finjo ser feliz porque a sociedade quer assim. Afinal, quem já disse "amo meu amigo depressivo"?. As pessoas não gostam de gente triste. E se você chegou até esta linha, deve ter um pézinho na tristeza.
Gastei anos da minha vida esperando um alguém que JAMAIS existiu, somente na minha imaginação. Vivi histórias imaginárias, e acreditei do fundo do meu coração que apareceria alguém que me faria companhia pro resto da vida. Já não consigo mais acreditar. E isso era algo muito importante pra mim. Perdi algo muito importante, a fé. E já não sei como recuperá-la.
Agora as opções são menores. Eu sou maior, e não me sinto assim. Ainda me sinto a mesma garotinha que acreditava que ainda havia tempo para tudo, mesmo não tendo mais. Ruim é quando você se dá conta que este sentimento é ilusório, não temos todo o tempo do mundo.
Então você entende que é melhor aproveitar todos os momentos como se fossem últimos, aproveitar tudo com bastante intensidade porque não sabemos se amanhã ainda teremos este tempo. Mas como aproveitar? Escolhe-se algumas porções de coisas que nos façam felizes. E quando aquilo que nos faz feliz não depende exclusivamente de nós? Mas espere, felicidade não deveria ser algo interno? Quem é feliz é feliz e ponto final?
Estes livros mentem. Felicidade é um negócio bem mais complexo do que se pode imaginar.
Mas voltemos ao tal tempo. Ele é o vilão e o mocinho. Bom para esquecermos coisas ruins, ruim quando ele demora a passar em momentos que deveria voar, triste quando ele passa e percebemos que não conseguimos o que queríamos - não atingimos a tal meta de vida. E quando não se tem uma meta pessoal? E quando se está tão perdido que não sabe exatamente o que fazer, pra onde ir, com quem contar? Passar o tempo é indigno de vida. Não combina com felicidade.
Tenho blog desde sei-lá quando. E você que costuma me ler, saiba, eu não sou feliz. Não tenho receita para a felicidade. Finjo ser feliz porque a sociedade quer assim. Afinal, quem já disse "amo meu amigo depressivo"?. As pessoas não gostam de gente triste. E se você chegou até esta linha, deve ter um pézinho na tristeza.
Gastei anos da minha vida esperando um alguém que JAMAIS existiu, somente na minha imaginação. Vivi histórias imaginárias, e acreditei do fundo do meu coração que apareceria alguém que me faria companhia pro resto da vida. Já não consigo mais acreditar. E isso era algo muito importante pra mim. Perdi algo muito importante, a fé. E já não sei como recuperá-la.
domingo, 15 de janeiro de 2012
JENIAL*
Toda vez que eu faço planos revolucionários que mudarão a humanidade, quer dizer que me farão mais humana, algo acontece. Acordei cedo com o seguinte plano: "Vai, Viviane, pelo menos fazer as unhas!". Tomei um banho que faria o Cielo querer me tirar a foça do banheiro. Ao sair do banheiro, tchanammmmm CHOVENDO.
Assim não dá. Pra mim a regra é clara, não se sai na chuva quando não se é obrigado - tipo dia de trabalhar. E cá estou eu sentada, feito criança entediada caçando o que fazer.
Coisa pra fazer sempre tem. Tem meu guarda-roupas que não vê uma arrumação desde....desde...desde que ele foi criado. Tem uma tonelada e meia de roupas para lavar e passar. Tem a minha reunião de resultados que eu não fiz e poderia aproveitar este dia para fazer. Enfim, coisa tem. Mas eu não quero! Como lidar?
Eu prefiro ficar pensando atrocidades que incluem desde cirurgia plástica à escrever um best seller do que fazer o que preciso fazer, as coisas "práticas" da vida. Que de práticas não tem nada, vamos concordar minha gente.
Quem acorda com uma vontade insana de arrumar o guarda-roupas? Quem acorda com uma vontade enorme de trabalhar no dia da folga? Quem pensa "Hum, seria fantástico fazer uma faxininha só pra relaxar"? E se alguém pensa isso, por favor, encaminhá-la com urgência à terapia.
O problema todo está no "Ah, vai, eu posso fazer isso". Algum gênio descobre alguma coisa, escreve algo, e eu sempre acho que seria mega fácil fazer o mesmo. Não, eu não sou "jênia" (sic), mas sempre acho que posso ser. Sabe, lá no fundo dos meus 82 de QI (nunca fiz o teste, estou apenas chutando), devo ter algo genial que não estou dividindo com a humanidade. E o motivo disso? Minha constante e imensurável preguiça. Sim, meus caros, duvido que Einstein tenha sido um pândego preguiçoso.
Então é isso, vou revolucionar o mundo neste exato momento....
Ah....
Mas está chovendo. Amanhã, amanhã....
*(Com J e não me encham!)
Assim não dá. Pra mim a regra é clara, não se sai na chuva quando não se é obrigado - tipo dia de trabalhar. E cá estou eu sentada, feito criança entediada caçando o que fazer.
Coisa pra fazer sempre tem. Tem meu guarda-roupas que não vê uma arrumação desde....desde...desde que ele foi criado. Tem uma tonelada e meia de roupas para lavar e passar. Tem a minha reunião de resultados que eu não fiz e poderia aproveitar este dia para fazer. Enfim, coisa tem. Mas eu não quero! Como lidar?
Eu prefiro ficar pensando atrocidades que incluem desde cirurgia plástica à escrever um best seller do que fazer o que preciso fazer, as coisas "práticas" da vida. Que de práticas não tem nada, vamos concordar minha gente.
Quem acorda com uma vontade insana de arrumar o guarda-roupas? Quem acorda com uma vontade enorme de trabalhar no dia da folga? Quem pensa "Hum, seria fantástico fazer uma faxininha só pra relaxar"? E se alguém pensa isso, por favor, encaminhá-la com urgência à terapia.
O problema todo está no "Ah, vai, eu posso fazer isso". Algum gênio descobre alguma coisa, escreve algo, e eu sempre acho que seria mega fácil fazer o mesmo. Não, eu não sou "jênia" (sic), mas sempre acho que posso ser. Sabe, lá no fundo dos meus 82 de QI (nunca fiz o teste, estou apenas chutando), devo ter algo genial que não estou dividindo com a humanidade. E o motivo disso? Minha constante e imensurável preguiça. Sim, meus caros, duvido que Einstein tenha sido um pândego preguiçoso.
Então é isso, vou revolucionar o mundo neste exato momento....
Ah....
Mas está chovendo. Amanhã, amanhã....
*(Com J e não me encham!)
sábado, 14 de janeiro de 2012
Feliz?
Me peguei lendo diários antigos. E como é bom voltar no tempo.
Os diários são máquinas do tempo. Lá vou ao ano que mais me interessar. Dou uma olhada em como estavam as coisas, e volto correndo para 2012. Porque saudade é um sentimento gostoso, mas deve ser apreciado com moderação, senão não se vive o presente.
Temos a tendência de vermos as coisas melhores do que elas realmente eram. O famoso eu era feliz e não sabia.
Na época da faculdade eu era feliz e não sabia? Acho que não. Eu acredito que felicidade é um sentimento que você sabe e sente quando ela aparece. Não é um lance que acontece todo dia. Gente feliz demais é irritante. Quem dirá todo dia. Chega a ser falta de higiene esta felicidade constante.
Os pequenos instantes, aqueles que passam num piscar de olhos, e que marcam para uma vida inteira, estes sim, são especiais. Eu tenho uma lista moderada deles. Tenho saudade, mas não quero revivê-los. Não quero voltar no tempo. Quero que o tempo avance, quero que a vida siga seu fluxo, quero que ela me mostre do que ela é capaz. Sempre se pode fazer melhor.
Lição aprendida e mentalizada. Nunca mais usarei a frase "Eu era feliz e não sabia". Porque estar feliz é um estado inconfundível.
Os diários são máquinas do tempo. Lá vou ao ano que mais me interessar. Dou uma olhada em como estavam as coisas, e volto correndo para 2012. Porque saudade é um sentimento gostoso, mas deve ser apreciado com moderação, senão não se vive o presente.
Temos a tendência de vermos as coisas melhores do que elas realmente eram. O famoso eu era feliz e não sabia.
Na época da faculdade eu era feliz e não sabia? Acho que não. Eu acredito que felicidade é um sentimento que você sabe e sente quando ela aparece. Não é um lance que acontece todo dia. Gente feliz demais é irritante. Quem dirá todo dia. Chega a ser falta de higiene esta felicidade constante.
Os pequenos instantes, aqueles que passam num piscar de olhos, e que marcam para uma vida inteira, estes sim, são especiais. Eu tenho uma lista moderada deles. Tenho saudade, mas não quero revivê-los. Não quero voltar no tempo. Quero que o tempo avance, quero que a vida siga seu fluxo, quero que ela me mostre do que ela é capaz. Sempre se pode fazer melhor.
Lição aprendida e mentalizada. Nunca mais usarei a frase "Eu era feliz e não sabia". Porque estar feliz é um estado inconfundível.
Onde?
Onde eu estava quando te perdi? Como foi que isso aconteceu?
Parecia tão difícil apertar o botão "deletar" do coração, e da mesma forma que chegou - rápido e sem notificação - foi embora. Assim como um vendaval. Assim como música da moda, que gruda como chiclete, e vai embora.
Eu imaginava algo mais trágico para o fim. Mas parece que estou me acostumando com finais, e eles nem me afetam por muito tempo. A gente chora no cantinho, faz cena de novela, acha que o mundo não será mais igual, e quando percebe...se foi.
Eu procurei nos diários, procurei fotos, procurei o que podia para não deixar ir embora, mas foi mesmo assim.
Às vezes é bom sentir-se aliviada. Às vezes faz falta um pouco de drama mexicano. Sim, eu adoro ser dramática! Mas pode fazer bem deixar a vida fluir.
Entrou, deixou seu recado. Saiu deixando a notificação de que virá outro em seu lugar. Porque a vida é cíclica. Nunca achei que fosse dizer isso dela. Desculpa aí, vida, já manjei a sua.
Parecia tão difícil apertar o botão "deletar" do coração, e da mesma forma que chegou - rápido e sem notificação - foi embora. Assim como um vendaval. Assim como música da moda, que gruda como chiclete, e vai embora.
Eu imaginava algo mais trágico para o fim. Mas parece que estou me acostumando com finais, e eles nem me afetam por muito tempo. A gente chora no cantinho, faz cena de novela, acha que o mundo não será mais igual, e quando percebe...se foi.
Eu procurei nos diários, procurei fotos, procurei o que podia para não deixar ir embora, mas foi mesmo assim.
Às vezes é bom sentir-se aliviada. Às vezes faz falta um pouco de drama mexicano. Sim, eu adoro ser dramática! Mas pode fazer bem deixar a vida fluir.
Entrou, deixou seu recado. Saiu deixando a notificação de que virá outro em seu lugar. Porque a vida é cíclica. Nunca achei que fosse dizer isso dela. Desculpa aí, vida, já manjei a sua.
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
O coração bate
Hoje fui ao cardiologista. Me senti criança novamente. Acho que pessoas com 30 anos não marcam consultas com cardiologistas.
O médico foi um querido. Ao chegar no consultório já deu aquele largo sorriso, apertou minha mão, me olhou nos olhos e perguntou "Como vai esta coraçãozinho?". Sabe que deu vontade de chorar? Seria piegas demais se isso acontecesse. Eu tinha vontade de dizer que não estava nada bem, que eu estava sentindo dores fortes, e que me faltava a respiração e por alguns momentos eu achava que deveria seguir a luz, mas soaria dramático demais.
O que sei, é que o Doutor Roberto cuida do coração e da alma. Sei que ele conversa, e por alguns instantes achei que fosse ganhar um pirulito e um adesivo das princesas.
Ele afagaria minha cabeça e diria: "Vai lá, campeã. Este coração aguenta qualquer coisa!".
Uma pena o Doutor Roberto não cuidar de azedumes do amor. Adoraria ter uma poção que fizesse eu não sentir tanta falta de amor. O coração precisa de amor. Assim como quando eu ficar velhinha vou precisar tomar AS infantil para afinar o sangue, agora aos 30 anos, eu preciso de amor.
E não é este amor pela metade, este amor que eu amo sozinha. É um amor compartilhado. É sentir prazer nas coisas do dia a dia. É ter alguém para pedir para levantar e apagar a luz pra mim. Que ria das minhas piadas como se eu fosse a melhor piadista do mundo. Que ache graça no meu mau humor, que um dia me dê uma florzinha do jardim. Que deite na grama e me conte uma história. Eu quero esta cafonice toda, ok?
Cansei de amar sozinha. Cansei de viver contos de fadas em que o príncipe sai correndo de mim. Cansei de chegar em casa e não ter ninguém. Cansei de fotos fakes. Cansei de fingir uma felicidade que não existe. E como diria o poeta, é impossível ser feliz sozinho. Ser solteiro não é este mar de rosas que desenham. Não é legal, ok? Pronto, falei.
O tempo passa. E passar o tempo sozinha é uma das piores coisas da vida.
O Doutor Roberto disse que estava tudo bem, que eu ficaria bem, e que a dor no peito iria passar. Mas ela não passa. Ela nunca passa. Faz anos que espero passar. Mas não passa. É um buraco enorme no peito.
Falta aquelas canções, falta a poesia escrita em diário, falta a história, falta a vida, e às vezes me falta o ar. Melancolia que não sai de mim, não sai...
Éh, deve passar...
O médico foi um querido. Ao chegar no consultório já deu aquele largo sorriso, apertou minha mão, me olhou nos olhos e perguntou "Como vai esta coraçãozinho?". Sabe que deu vontade de chorar? Seria piegas demais se isso acontecesse. Eu tinha vontade de dizer que não estava nada bem, que eu estava sentindo dores fortes, e que me faltava a respiração e por alguns momentos eu achava que deveria seguir a luz, mas soaria dramático demais.
O que sei, é que o Doutor Roberto cuida do coração e da alma. Sei que ele conversa, e por alguns instantes achei que fosse ganhar um pirulito e um adesivo das princesas.
Ele afagaria minha cabeça e diria: "Vai lá, campeã. Este coração aguenta qualquer coisa!".
Uma pena o Doutor Roberto não cuidar de azedumes do amor. Adoraria ter uma poção que fizesse eu não sentir tanta falta de amor. O coração precisa de amor. Assim como quando eu ficar velhinha vou precisar tomar AS infantil para afinar o sangue, agora aos 30 anos, eu preciso de amor.
E não é este amor pela metade, este amor que eu amo sozinha. É um amor compartilhado. É sentir prazer nas coisas do dia a dia. É ter alguém para pedir para levantar e apagar a luz pra mim. Que ria das minhas piadas como se eu fosse a melhor piadista do mundo. Que ache graça no meu mau humor, que um dia me dê uma florzinha do jardim. Que deite na grama e me conte uma história. Eu quero esta cafonice toda, ok?
Cansei de amar sozinha. Cansei de viver contos de fadas em que o príncipe sai correndo de mim. Cansei de chegar em casa e não ter ninguém. Cansei de fotos fakes. Cansei de fingir uma felicidade que não existe. E como diria o poeta, é impossível ser feliz sozinho. Ser solteiro não é este mar de rosas que desenham. Não é legal, ok? Pronto, falei.
O tempo passa. E passar o tempo sozinha é uma das piores coisas da vida.
O Doutor Roberto disse que estava tudo bem, que eu ficaria bem, e que a dor no peito iria passar. Mas ela não passa. Ela nunca passa. Faz anos que espero passar. Mas não passa. É um buraco enorme no peito.
Falta aquelas canções, falta a poesia escrita em diário, falta a história, falta a vida, e às vezes me falta o ar. Melancolia que não sai de mim, não sai...
Éh, deve passar...
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