quinta-feira, 3 de maio de 2012

A cirurgia

Em algum momento da sua vida alguém vai usar um bisturi em você.
Sei que parece dramático, e é horrível pensar sobre este tema, mas é importante. Em 30 anos nunca tinha aberto nada. Epa, peraí, a frase ficou tosca e inacreditável. Vamos reformular. Em 30 anos, que eu me recorde, nunca havia feito uma cirurgia. E acredito que lembraria se tivesse feito.

Eis que chegou a minha vez. Pilotos e médicos me assustam. Parece uma comparação imbecil, e é. Mas ambos me assustam mais do que palhaço, que também me assustava muito antes dos 8 anos de idade.
O piloto viaja diariamente com centenas de pessoas dentro de um avião e e ele faz isso com a maior naturalidade do mundo.
Às vezes tem um defeito no avião e ele diz "Ok, vamos decolar!". A minha vontade é de dizer "Hey, peraí mermão. Vamos decolar o caralho. Eu não saio do chão enquanto não estiver tudo 100% ok!". Mas eles são filhos da puta, fazem isso com a maior naturalidade do mundo. Voam faltando peça, voam com um motor, voam até sem asa (bem, isso foi exagerado).

Com os médicos a mesma coisa. Ontem, ao fazer minha primeira cirurgia com anestesia local, a enfermeira disse:

 - Hum (cara de que deu merda). Dr, o foco não está bom.

 Eis que entra uma outra enfermeira:

 - Xi, menina, o foco não está bom desde a semana passada.

 Um momento. Deixa eu ver se eu entendi. A porra do foco não está bom e mesmo assim vão cortar o meu joelho? É isso mesmo? A enfermeira volta a dizer:

 - Dr, o foco não está bom.

 Ele, como se isso não tivesse a menor importância diz:

 - Vou precisar de um número 8, viu?

 E como se o foco não fizesse diferença na vida dele, tocou o barco e abriu meu joelho na maior. Enquanto abria, batia o maior papo sobre a virada de tempo no feriado. E lá estava eu, a mortadela, ouvindo aquele assunto banal. Falar do foco, que era de fato o mais importante, nada. Eis que decidiram que a mortadela poderia participar do assunto:

 - Olha, vai ficar uma cicatriz.

 Fiz cara de pouco caso. Foda-se, já abriu esta merda, agora manda vê.
 E ao abrir o joelho, eis que meu joelho decide se vingar do pouco caso que fizeram dele. Espirra um jato de algo que faria filmes de terror contos infantis, bem na cara do médico. Admito que senti um pouco de prazer. Nem se eu tivesse maquinado isso, aconteceria com tanta precisão.
 E como se o fato do meu joelho estar aberto jorrando algo amarelo com sangue não tivesse a menor importância, ele saiu da sala para lavar o rosto. Sim, meus caros, se o foco estivesse ajustado, ele não teria tomado na cara.
Depois o efeito exorcista, ele finalmente falou:

 - Este foco está ruim, né?

Como não houve resposta da enfermeira, ele continuou o monólogo.

 - Viviane, acho que não vai resolver e é bem capaz do nódulo voltar. É um "ragatanga acerehê" (isso mesmo, não entendi porra nenhuma do que ele disse- então fiz a livre tradução).

 Já não queria mais papo com ele, nem com a enfermeira, e nem com o meu filhote Alien que ele fez questão de me mostrar no final. Acho que ele quis tornar inesquecível, só pode.

 O que os pilotos têm a ver com tudo isso? Tem que são tão filhas da puta quanto os médicos. Quanto mais medo você demonstra, mais eles querem te sacanear. Lição aprendida: Nunca demonstre medo à médicos ou pilotos de avião. O meu joelho? Ah, está aqui, doendo pra cacete.

Um comentário:

Alan (FFC) disse...

Não demonstre medo a professores filhos da puta também. Aprendi essa lição há muito tempo atrás... rs