domingo, 9 de outubro de 2016

Elas sabem o que é felicidade...

Eu sinto falta dos tempos de criança. Quando eu podia ser criança sem preconceito algum. Um tempo em que quando alguém dizia que eu era criança, era apenas uma constatação.

Hoje tento manter o olhar como o da criança. Mas depois de tantos anos olhando a vida, este olhar se polui. E a sensibilidade, franqueza e pureza vão se escondendo. E recuperar esta criança fica cada dia mais difícil.

Se alguém me perguntasse, quando eu ainda era criança, o quê eu gostaria de ser quando crescesse, hoje teria uma resposta. Queria não crescer. Ok, nem cresci tanto assim em altura. Mas vocês entenderam, vai. Queria ser criança, ao contrário do Tom Hanks em "Big" que quer ser adulto, eu trocaria facilmente com ele. Você vira adulto, e me deixa ser criança no seu lugar.

Eu lembro com muito carinho desta fase da vida.
Eu tinha uma imaginação que não cabia em mim. Fazia do pouco, ou nada, algo extremamente grandioso. Não tinha tempo ruim para brincar. E brincava o dia todo.
Colecionei joaninhas, comi terra, corri na floresta achando que eu era a Kate Marrone, brinquei de taco, cai de bicicleta, quebrei o braço, tive corte de cabelo constrangedor, cortei o cabelo da irmã brincando de cabeleireira, tive minha própria estação espacial no galpão de artesanato do meu pai, vivi no meu mundo da lua particular, dancei ouvindo Balão Mágico, chorei quando vi a Xuxa pela primeira vez, fui o Dunga no teatro da escola (mesmo brigando muito para ser a Branca de Neve), e sob protestos aceitei este papel.
Tive medo de fantasmas, invadi casas mal assombradas para fazer a brincadeira do copo, tive medo de dias chuvosos, e achava que o Apocalipse bíblico aconteceria a qualquer momento (espero até hoje), roubei hóstia da igreja porque sempre quis saber que gosto tinha, fugi de casa com um cabo de vassoura nas costas a lá Chaves - só dei uma volta no quarteirão - fiquei com medo e voltei.
Fui à escola de perua escolar me achando muito adulta, usei conga, tive camiseta fluorescente, roubei o caderno de ocorrências da escola, fui Miss Caipirinha, fui em diversas excursões ao Playcenter e achava que era quase a Disney, demorava 3 horas montando uma casinha para brincar 5 minutos, ganhei a Família Coração porque meus pais não tinham dinheiro para Barbies, e fiz disso um estilo só meu. Chorei quando ganhei a Lu Patinadora,tive uma boneca Xuxa do Paraguai, brincava de submarino numa banheira de plástico de quando eu era bebê (o que pra mim aos 5 anos era algo de outra vida, ser bebê era algo muito distante), fazia teatro para as minhas bonecas, tive um bolo incendiado porque a grama era de papel, entrei escondida pela lona do circo para ver o palhaço, sentei numa motoquinha de plástico e só sai de cima dela quando minha mãe comprou, e só acreditei que ela realmente tinha comprado quando chegamos em casa, voltei do mercado até minha casa sentada nela, tiveram que tirar a tampa do porta malas para que nós coubéssemos. Já passei  muitos natais brincando com o brinquedo novo. E me lembro de ter ganho uma piscina de plástico de um Papai Noel negro, num Natal distante.

E hoje, muitos anos depois, passaria horas lembrando da época em que fui criança. Lembro com riqueza de detalhes dos pequenos prazeres que eu tinha, e era muito feliz.

Hoje sou "adulta", mas visito sempre minha criança. Sinto saudades da Vivi criança. A visito quando estou com outras crianças, é uma desculpa para um prazer particular. Gosto de crianças porque sei exatamente o que sentem. E espero nunca esquecer esta satisfação do novo, do diferente, dos pequenos gestos, e das boas gargalhadas com o simples. Amo as crianças porque elas sabem o que é viver. Amo visitar a minha criança para nunca esquecer que a vida é feita de pequenos momentos, pequenas descobertas, e uma infinidade de possibilidades.
Deixem as crianças serem crianças. Sejam crianças às vezes.Unam-se aos que sabem sobre felicidade.


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