segunda-feira, 23 de março de 2015

Domingo

Levanta que hoje é domingo. Me dói só de pensar que quando eu era criança, eu gostava do domingo. Gostava muito. Hoje, quando abri os olhos, e lembrei  que era domingo, tentei lembrar porque eu gostava deste dia.

Eu abria os olhos, não pensava duas vezes, e saia correndo. Tinha uma disponibilidade atroz para fazer isso. Sem pestanejar, pulava na cama dos meus pais que ainda estavam sonolentos. Nunca recebi nenhum tipo de repreensão por este comportamento. Muito pelo contrário, era bem recebida na cama deles. E começava a cantoria:
"Hoje é domingo, pede cachimbo (eu sempre cantei pé de cachimbo - descobri recentemente a versão correta), o cachimbo é de ouro, bate na gente, a gente é fraco, cai no buraco, o buraco é fundo, acabou-se o mundo!!!!!"

Levantávamos e eu ia com meu pai até a padaria. Tinha as comidas de domingo.  Neste dia era possível escolher um sonho para comer mais tarde, e antes do almoço!!! Doce antes do almoço. O pão era fresquinho, e eu adorava mortadela com café e pão fresquinho. E domingo era este dia. Tinha mesa do café. E ficávamos lá um tempão.  Depois eu e meu pai íamos brincar, minha mãe cuidava das coisas, e já iniciava os preparativos para o almoço. Sempre massa. Não sei se gosto de massa tanto quanto eu acho que gosto, ou se pela memória afetiva dela.

Vinha tios, tias, primos, primas da minha idade, eu tinha um quintal grande e uma bicicleta. O que mais eu poderia querer da vida?

Meus pais eram jovens, faziam planos de mudar de casa, compartilhavam com meus tios, falavam do meu futuro quarto. Enfim, ali era a perfeição. Não tinha dúvidas de que era feliz. Aliás, criança não questiona felicidade. É feliz e ponto.

Hoje eu acordei com preguiça. Não é habitual. Acordo cedo, disposta a fazer mil coisas do dia. Eu me programo para ter muitas coisas no dia. Hoje foi diferente.
Preparei meu café lentamente. Olhei ao redor e estava sozinha. Sem bicicleta, sem tios, tias, primos, primas, sem o cheirinho de pão fresco (compro pão de forma, mais prático), sem aquela leveza que eu costumava ter. E, realmente, me senti sozinha. Me senti absurdamente sozinha numa manhã de domingo. E não adiantaria sair, não adiantaria ligar para alguém, eu estava sozinha. E eu, que ja tive medo do escuro, que tinha medo de ficar sozinha, estava sozinha.

Os dias da semana continuam iguais. A gente que muda a forma de vê-los.

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