sábado, 23 de abril de 2011

Alice

Caiu num buraco a pobre Alice, sim aquela do País da Maravilhas.

Só que ao invés do País do chapeleiro maluco, você entra num tubo chamado passado maluco.

Tudo o que Alice sempre disse que não queria, na verdade é tudo que eu sempre quis. Ok, chamem a Doutora Catarina de volta. Melhor, chamem o chapeleiro maluco. Quem sabe assim ele coloque Alice dentro do bule para que ela não veja o que acontece lá fora. Ver o mundo apenas pelo buraquinho limitado do bico do bule. Já é o bastante.

Tem lembranças que devem ficar no passado, no pretérito mais que perfeito. Porque existe pretérito que não seja? Tudo que passou, nas lembranças, é melhor do que realmente foi.

Tem horas que não se deve abrir a porta do País das Maravilhas, muito menos cair em buraco conhecido. De novo? Burrice completa.

Encolhe, estica, corre. Cortem as cabeças, retirem o coração, por favor. Alice gosta dele frio, congelado, estático.
Não sei se ela gosta assim, mas gosta de acreditar que é verdade, pelo menos a sua.

Ao cair no buraco viu caras conhecidas, conselhos já dados, frases já ditas, e respostas que já sabia. E mesmo assim, Alice, você caiu no buraco. Ainda não chegou ao fundo. Agarre-se às folhagens, não se deixe cair. Lembre-se, Alice, lembre-se. Lembre-se do que realmente aconteceu, não do que você gostaria que acontecesse.

Lembre-se que a chuva não era chuva, eram lágrimas. Lembre-se que a queda foi muito maior que a aventura. Lembre-se que o Doutor chapeleiro teve que refazer seu coração, que com a queda ficou em milhões de pedaços. Lembre-se também que na troca houve um erro e colocaram uma pedra. Pode uma pedra sentir?

Se o amor tivesse forma, ele seria aquele coelhinho que corre o tempo todo dizendo que está atrasado, o amor sempre está atrasado.
Fuja do coelho, Alice. Não o deixe enganar com o relógio atrasado. Quem está atrasado não é o coelho, é o relógio. E por mais que queira colocá-lo no seu tempo, já não é possível. Encolhe, estica, soluça, volta. Sai, Alice. Não deixem que cortem sua cabeça, segure-a onde sempre esteve.

Sobre seu coração, lembre-se, não é o momento. O relógio atrasou, e o coelho não te pega mais.

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