domingo, 26 de outubro de 2008

João Gilberto

Desceu a estreita rua sem olhar para trás.

Não tinha mesmo o que olhar. O passado não interessava mais. Serviu para aprender as tais lições da vida, e só.

Sentia um vento de chuva em seu rosto. O cabelo foi jogado no rosto. Nem tentou arrumar. O que era um cabelo bagunçado perto da confusão que estava sua vida? Ele era o retrato fiel da desorganização que estava sua cabeça.

Não sabia para onde deveria ir. Começou a andar mais devagar para poder pensar em algo.

Talvez devesse avisar a polícia. Mas dizer o quê?
Talvez devesse voltar e arrumar as coisas, ou ao menos vesti-lo.
Achou melhor deixar os mortos para lá.

Fechava os olhos e conseguia lembrar de todos os detalhes.
O cheiro de sexo, cigarro e vinho barato.
Eles estavam no sofá laranja. O sofá que ela havia comprado em uma feira de móveis e parcelou em 10 vezes. Agora ele estava manchado de sangue. Nem tinha terminado de pagar as prestações.

A porta estava entreaberta. No som rolava um João Gilberto. Que tipo de pessoa transa ouvindo João Gilberto?

Se João Gilberto soubesse o tipo de gente que anda transando com sua música de fundo, nunca mais tocaria. O que não seria de todo ruim.

Ela sempre soube que ele tinha um caso. Era notório. Aliás, ela não era a única que sabia.
Sempre achou que ele, ao menos, respeitaria a sua casa. Mas não foi o que aconteceu.
Naquela terça-feira, final de tarde, ao chegar mais cedo do trabalho, dá de cara com aquela cena bizarra.

Ele estava com uma sunga de couro e um capuz preto no rosto. Os braços amarrados. Apanhava bastante com um chicote de couro.

Não dava para acreditar na cena.

Aquele olhar ela nunca vai esquecer. Ele sem palavras, com os olhos cheios lacrimejando. Pediu para que seu companheiro fosse embora.

Eles brigaram. E ela ouviu o primeiro tiro. Depois o segundo tiro mais abafado dentro da boca.

Os dois corpos nus jogados no sofá laranja.

Desligou o som, e saiu. Desceu a ladeira. Quando a ladeira acabou, ela sentou no chão, acendeu um cigarro e disse:

- Porra, João Gilberto.

3 comentários:

Rodrigo Borges disse...

Vou falar baixo para não ser xingado. Acho João Gilberto um puta chato que faz uma música mais chata ainda. Mas não conta pra ninguém que eu disse isso.

Eliana Klas disse...

Puxa que alegre surpresa!
Estava com muitas saudades de seus textos!
Beijos.

Vanessa Dantas disse...

Adoro João Gilberto, e... deixa pra lá!

Que bom que voltou!

Agora também tenho um BLOG. Quando puder, apareça para uma visita!