quinta-feira, 3 de julho de 2008

A justiça tarda

Era um funcionário antigo da empresa. De contínuo chegou à chefia a duras penas. Gostava de gerir pessoas. Estava em sua melhor fase.

Ela tinha aproximadamente 24 anos. Era protestante ferrenha e funcionária exemplar. Jamais chegava atrasada, e jamais saía no horário.

Um dia chegou atrasada. Preferiu não dar explicações.
Carlos, humano que era, foi ter com ela:

- Silvana, você está bem
?

Tocou levemente em seu ombro. Ela retraiu-se com feição de dor.
Ele tentou puxar assunto, ela desconversou.

Não precisava dizer o que estava claro, ela havia sido violentada.

O mesmo ocorreu na semana seguinte. Desta vez ela estava de óculos escuros.
Foram até a copa tomar um café, e conversar.
As lágrimas não paravam de rolar. Silvana estava sendo violentada por seu marido.

- Silvana, este homem não te merece. Largue-o.

A partir daquele dia Carlos virou confidente, sempre apoiando Silvana em seus momentos mais difíceis.
Como ela era a última a sair da empresa, ele sempre a levava até perto de casa. Sempre com aquele sorriso amigável:

- Vamos, moça! Vai ficar aí na porta esperando o ônibus no frio
? Vem para o quentinho!

Depois de um mês, ela finalmente largou o marido.

Era final de tarde do dia 01 de Agosto quando ela se levantou e começou a gritar no meio do escritório:

- Quando você vai me assumir, heim
? Você me fez largar meu marido, disse que moraríamos juntos. E agora? Estou morando sozinha, não posso mais ir à igreja porque me acham adúltera. O que você pretende fazer?

Ele não teve reação. Era tudo mentira o que Silvana dizia. Carlos era um homem casado, com uma família muito bem estruturada, e estava no melhor momento de sua vida.

Ela saiu da sala aos prantos e pediu demissão.

Dois meses depois, no tribunal.

Caso: Assédio Sexual.

Dona Lourdes, copeira, estava no tribunal. Seu Jonas, segurança, também.

- Olha, o Seu Carlos é gente boa e decente.

- Senhora, atente-se a responder o que eu pergunto. A senhora percebeu algum tipo de relação entre os dois
?

- Uma vez ela estava chorando muito, e ele pediu para ela largar o marido.

Seu Jonas:

- Ela sempre ia embora com ele. Ele a chamava para dentro do carro dizendo que iria esquentá-la.

Não houve dúvidas. Eles tinham um caso. Ela largou o marido que a batia por causa dele. Ela só aceitou ficar com ele porque ele a ameaçou. Caso ela não ficasse com ele, perderia o emprego. Cansada desta exposição, pediu demissão.

Saiu do trinubal com R$ 25.000,00 em indenização.

Ele saiu desmoralizado, sem emprego, e perdeu a esposa.

Um ano depois a foto de Silvana estava estampada no jornal.
"Presa chefe de quadrilha que dava golpes pelo interior de São Paulo. Mais de vinte causas ganhas por assédio sexual".

Bateram em suas costas, e disseram que a vida continua.

Carlos já estava depressivo, tomando remédios, e obeso. Realmente, a vida continuou, mas nunca mais foi boa.


5 comentários:

F. disse...

"Vem para o quentinho", Vivi? Um cara não ia dizer isso para uma "protestante ferrenha" se não estivesse com péssimas intenções. Acho que a Justiça foi feita. Ele estava mesmo fazendo a crente! (hahahahaha)

Marcos Bonilha disse...

Vivi você é demais.

Confessa, você está guardando dinheiro para publicar um livro?

Se não estiver, quando eu ganhar na mega banco um para você. hehehe

Fuser disse...

haha muito bom!
só vc msm pra deixar a segunda mais leve!

bj!

eder disse...

Uau!!!
Vivi, que coisa... a gente passa um tempinho só sem vir aqui e você faz um daqueles textos imperdiveis...
Beijo.

Roca Just disse...

adoro seu contos. sempre passeio por aqui.