domingo, 18 de maio de 2008

Os seus são nossos

Já fazia um ano que estava casada. Ainda assim, todas as tardes, saia de casa, se arrumava, pintava-se, e saia pela cidade de São Paulo.
Não tinha um rumo certo. Não fazia plano algum, apenas saía.

Gostava de olhar as pessoas em seus andares apressados pela cidade. Gostava também de ouvir conversas, participar, mesmo que fosse por alguns instantes, da vida de estranhos.
De uns tempos pra cá notou certa preferência pelos pais solteiros.
Achava lindo o sentimento de paternidade.

Entrava no metrô e sentava-se num banco, ao lado de um homem. Podia ser velho, moço, feio ou bonito, bastava que estivesse com alguma criança.

Começava fazendo amizade com a criança. Sempre andava com um chocolate na bolsa. A tática era simples. Abrir o chocolate e oferecer. O pai pedia para a criança não aceitar. Afinal de contas, que pai deixaria seu filho aceitar algo de uma pessoa estranha?

Ela sorria e tirava uma nova barra. Insistia com seu doce sorriso. Que homem desconfiaria de uma mulher de aproximadamente 1.60, olhos azuis, cabelos loiros longos e cacheados? Era como recusar uma benção de um anjo.

O assunto começou na estação Jabaquara e terminou na estação Sé.

A pergunta final foi fatídica:

- Você é casado?

O homem até ficou sem graça com tamanha objetividade na pergunta, mas respondeu com um profundo suspiro que jamais havia se casado.

Ela se dizia solteira e com filho. A idade de Cláudio, seu filho imaginário, variava de acordo com a idade do filho da vítima.

Aos poucos se infiltrava na vida dos homens solteiros com filhos. Conseguia estabelecer uma relação. Durante a semana era uma mulher exemplar. Aos finais de semana, dizia ao marido que ficaria com a mãe doente em um hospital. Ele nunca pedia para acompanhá-la.

Na verdade, Carlos até gostava dos sumiços de Paula. Era nessas oportunidades que encontrava Laurinha, sua amante.

As relações duravam, no máximo, três meses. Os abandonava quando eles pediam para conhecer seu filho.

Enquanto a relação durava, Paula conhecia a família de seus namorados, levava os filhos ao parque de diversões, cinema, teatro infantil, e tudo mais que eles quisessem. Era muito difícil alguma criança não gostar de Paula.

Era um final de tarde de sábado. Paula passeava com João e filhos pelo parque Vila Lobos quando avistou ao longe um rosto conhecido-Carlos. Aproximou-se para ver melhor. De mãos dadas com uma mulher, a beijava carinhosamente na testa. Uma criança o puxou pela mão e foram os três em direção ao pipoqueiro.

Primeiro tudo ficou escuro. Logo na seqüência veio uma pontada enorme em seu coração. A última palavra que ouviu foi: “Pai, depois eu vou querer um algodão doce!”.

Foi naquele exato momento que teve a absoluta certeza de que era infértil.

Ficou ao longe observando aquela família. Foi a última imagem que viu antes de morrer.

6 comentários:

Finito Carneiro disse...

Sensacional!
A verdade dói, né?

Fernando Amaral disse...

Triste...

eder disse...

Pensando nas possibilidades, ao menos foi um bom modo de morrer...


Ps.: Vivi, se for possivel você mudar o lInk do Anônimos ficaria agradecido.
Agora é: http://anonimossecretos.wordpress.com
Bjo, obrigado.

Renata Marques disse...

Já te falei que seus contos são perfeitos? Deliciosos de ler e uma curiosidade insana de saber no que vão dar!

Alan disse...

adorei... rs

Marcos Bonilha disse...

Matando a pau como sempre.