quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

La vie en Rose

Davi não conseguia parar de chorar. A chuva caia no pára-brisa na mesma intensidade em que rolava por seu rosto.

Colocou a mão na boca como quem tenta inibir que seus pensamentos saiam por sua boca, e que suas palavras se tornem verdade. Tinha vontade de matá-la. A mataria com as próprias mãos se fosse possível.

A velocidade fazia com que a chuva batesse cada vez mais forte no pára-brisa . Correu o máximo que pode. Queria chegar em casa o mais breve possível. Não sabia bem o motivo, mas sabia que chegar em casa aliviaria a sensação de desamparo que estava sentindo.

Lembrava nitidamente do dia em que foi apresentado à Verônica por Carlos, seu melhor amigo.
Carlos vivia dizendo que ela era magra demais e que tinha um péssimo gosto para se vestir. Mas era muito boa com os negócios da família dela.

Saimos algumas vezes. E essas poucas vezes se transformaram em muitas, até que um dia ela o pediu em casamento. Sim, ela que pediu.
Ele achava que um dia encontraria uma mulher linda e inteligente, a pediria em casamento, e teriam dois filhos, um menino e uma menina.

Com Verônica nada disso se tornou realidade. Ela o pediu em casamento, depois de um ano de casados, ele assumiu a vice-presidência da indústria do pai de Verônica. Depois da morte de seu pai, ele assumiu a presidência.

- Verônica, o que você faz aqui?
- Vim dar ao Carlos o que ele merecia?
- O quê?
- Ele não tinha o direito de nos trair. Você sabia que ele estava roubando a empresa do meu pai? O nosso patrimônio, Davi.
- Onde ele está?
- Tomando banho.
- Vocês transaram?
Silêncio...
- Diga alguma coisa? Carlos, vem aqui!

Foi até o banheiro. Carlos estava dentro de uma banheira cheia de gelo. O gelo ainda tinha cor de sangue vivo. Os olhos de Carlos estavam estalados, semelhantes a de um peixe morto.

Verônica tomava vinho na sala e ouvia Piaf. Não se alterou em momento algum.

Davi não disse absolutamente nada. Fechou os olhos do amigo e saiu do apartamento.
Verônica gritava os versos de La vie en rose.

Chegou em casa, abraçou a foto em que ele e Carlos estavam apostando corrida na infância e derramou as últimas lágrimas.
A viagem para Irlanda nunca mais aconteceria. Não conheceriam os Alpes suiços, nem Pequim. Todos os planos foram por água abaixo, Verônica descobriu tudo.

Ao final de La vie en rose Verônica deu um tiro na boca.

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