domingo, 10 de agosto de 2008

Por enquanto

No começo, não se conta as horas em horas, nem os dias em dias. É tudo sensação. Uma vaga idéia do tempo que passa, porque é escuro e claro lá fora, porque às vezes se trabalha e outras vezes não, porque os amigos fazem anos, os feriados acontecem, mas não existe lógica, nem total apreensão das coisas. Se eu choro, o meu choro é devaneio abstrato. A saudade é tão primeira e irracional, que ainda sinto o seu cheiro na saudade. Você há pouco estava aqui.

Depois, as formas vão de novo desenhando as coisas. Devagar, eu reconheço o meu quarto. Sei que está vazio. Já sou capaz de discernir algumas vozes, ler o jornal, tomar o café, responder a pequenas questões sobre a vida. Eu tenho noção do que acabou, do que esteve e já não está. A saudade é segunda – compreendida e qualificada. De repente, me deixou triste saber que não fizemos fotos, mas eu já solto risadas para surpreender o silêncio. Na primeira semana, o silêncio é de ensurdecer a alma, me diz o horóscopo.

O horóscopo se apropria de fragilidades. Diz que o inferno começou no instante em que o Sol flertou com Câncer. Repara como não temos culpa de nada: somos fantoches dos astros. Como um louco, eu te pergunto as coisas, e você responde. A sua imagem é relutante como a de um holograma, e já passa pela minha cabeça a idéia, que ainda nego ferozmente, que talvez eu esteja completamente só.

Então, deixa passar a solidão por Câncer, deixa assentar a poeira das estrelas, dos humores, cessar de vez a rebordosa astral. Eu ando calado, como um bichinho cooptado pelos hábitos domésticos, falando pouco, de poucos amigos. Veja você que ironia, eu ando falando quase nada. E ainda me deito e levanto abstinente, como se faltasse uma última dose na veia. Era químico o meu amor, eu acho. E acho em versos toscos, não me arrisco em estrofes articuladas (não nasci para a poesia). Meus pesadelos são como aqueles que devem ter os adictos, cheios de refluxos e personagens falhos. E você vive livre neles, transita desimpedido entre maus e bons sonhos, enquanto eu te adoro, te odeio, te justifico, te invento e te mato. Agora é deixar que a Lua se entenda com Escorpião. E alguém virá recolher as garrafas vazias, limpar as cortinas do cheiro do cigarro, dizer: amanheceu, rapaz; outra festa só amanhã.

Quando o sol passar por Leão, eu serei feliz de novo. Por enquanto, ainda te amo.

(Roberto Vitorino - 13 de Julho de 2008)

2 comentários:

Vanessa disse...

Quando o sol passar por Leão? Ufa! Falta pouco. Mas por enquanto...

Sensacional!

Eliana Klas disse...

Texto maravilhoso.
Obrigada por compartilhá-lo conosco.

Senti o silêncio da solidão, enquanto lia...