quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Retratos


Eles estavam todos espalhados pela sala. Registros de imagens que eu simplesmente não conseguia esquecer. Momentos registrados por garçons, pessoas estranhas nas ruas, amigos.

Sempre reclamava em ter que tirar fotos. Hoje são elas que me fazem companhia. Olho cada uma como se fosse uma raridade. Meu museu particular de imagem.

Sem elas talvez eu perdesse Veneza, Paris, Londres, Ouro Preto, o aniversário de namoro, o parque de diversões, o pedido de casamento, e o próprio casamento.

Agora estou jogada na sala olhando um a um. Olho a paisagem, as personagens, lembro das histórias.

Lembro do dia em que esquiei pela primeira vez. Logo na sequência tem a foto do roxo na minha perna.

Imagens estáticas que me comovem. Já sorri, já chorei, já fiquei pensativa.

O que a mente às vezes esquece, o retrato guarda, e nos faz relembrar.

Eu estava sentada, vestida com o uniforme vermelho, carregando a mochila que era maior que eu. O rosto estava sujo, coisa que não era novidade no Jardim da Infância. Ao lado um menininho com cara de arteiro, cabelinho ao estilo Juruna, coisas da década de oitenta. Ele fazia chifrinho, e eu fazia cara de brava.

Coincidentemente este mesmo menininho, vinte anos mais tarde, estaria no meu álbum de casamento, na maternidade, nas viagens, e em muitas festas.

O menininho de cabelo estilo Juruna cuidou de mim quando eu fiquei muito doente, me fez rir, me fez chorar, me fez passar por um turbulhão imenso de emoções.

A campainha tocou. Era ele. Já não era mais o menininho, agora é homem feito, como diriam os mais velhos. O ar arteiro deu lugar a um ar sério e compenetrado, reforçado pelos óculos de grau.
O uniforme vermelho foi substituído por um terno bem cortado acompanhado de uma gravata italiana.
As brincadeiras com massinha já não existem mais. Agora ele brinca com um computador que nos acompanhava até na cama, juntamente ao telefone celular.

E esta mesma pessoa que me deu a mão no passeio da escola, dançou comigo na festa Junina, pintou minha cara quando passei no vestibular, está com a última mala na porta da casa que vivemos juntos durante seis anos.

A porta fechou. Junto com ela um passado. Junto com ela o menininho do Jardim da Infância.
Do lado de dentro ficou uma pessoa que não tem mais cara de brava, e não tem medo do escuro. Mas que por outro lado, tem medo de recomeçar a vida.

Talvez outros retratos sejam tirados. Mas nenhum substituirá aqueles que estão jogados na minha sala.

7 comentários:

Fernando Amaral disse...

Qual seria a trilha ao fundo?

Cláudio disse...

Uma boa pergunta, Fernando.
Muito belo o texto, como todos os outros...

Marcos Bonilha disse...

Já disse que você arrebenta nos textos??
Se disse, fica registrado novamente. Vivi, de onde você tira tanta inspiração?
Escreve um livro, coluna em jornal, um blog (ops, esse já tem!)
Matou a pau!
Não muito a ver com tema, lembrei das minhas fotos que se acabaram pela mãos da maresia e da umidade. É muito triste saber que não tenho mais lembranças de infância.
Pior que as fotos atuais estão espalhadas em discos, hds e emails por aí.
Preciso me organizar urgentemente.

Vivi disse...

A trilha sonora seria algo de Ella Fitzgerald, acho que seria perfeito.
Marcos, já estou lhe devendo uma fábula por comentários gentis. Mas acho que perdi o número da sua conta bancária. Sobre fotos, a era digital acabou com a surpresa das fotos. Não tinha nada mais dievrtido do que ficar aguardando a revelação, e rir com as fotos.

Isabela disse...

Já passei por algo semelhante. Ele se foi. É verdade que um pouco tarde. Mandei "The Trees" do Rush, no último volume. Foi bom e assunto encerrado ou quase.

Vivi disse...

Rush? Sensacional!!!! Às vezes é tão complicado ser prático. Principalmente quando o assunto é relacionamento. Mas com o tempo a gente aprende que não é o fim do mundo. É o começo de uma outra relação. Momento de reciclar.

Isabela disse...

Penso que a praticidade é impossível num relacionamento, pelo menos quando nos referimos a um "amor verdadeiro". Para mim, quem consegue simplesmente deletar uma relação de uma hora para outra é porque ou enganou o outro ou a si próprio. É preciso tempo. Rush é bom, é sensacional, principalmente para extravasar. Foi puro impulso e provocação. Ele ouviu. E voltou. É verdade que um pouco tarde. Como sempre.